Quando nossos filhos começam a fazer sexo

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Nunca é fácil, nem para os mais liberais, moderninhos ou os que se “prepararam para tal”. Por mais que esteja presente a felicidade de reconhecer a motivação de um olhar encantado pela descoberta do prazer, pais e mães de adolescentes, com frequência se deparam com a dificuldade em falar sobre sexo e afeto, reproduzindo mais costumeiramente as frases “cuidado para não engravidar”; “olha lá o que você vai aprontar”; “use camisinha” e só.

A perda de seu “bebê”

Não há psicologia que nos salve de um aperto no coração, de uma sensação esquisita que tem morada mais no sentimento de perda, do que no acinte da moral. Eles cresceram e agora estão ali enrolados amorosamente no corpo dos outros, relegando os pais para segundo, talvez terceiro plano na sua escala de prioridades cotidianas. Alguns pais e mães podem sofrer tanto com isso, a ponto de dificultarem a vida social dos filhos e manipularem a fim de torna-los inseguros, retardando o seu desprendimento da família. Eu sei que dói, mas não seja egoísta. Seu bebê cresceu.

 

Um misto de inveja, medo e amor

A sexualidade do adolescente incomoda porque eles são lindos. Porque eles exalam hormônios pelas “tampas”, enquanto nós os estamos perdendo. Porque eles só querem saber de namorar (que delícia, não?), enquanto nós lutamos diariamente para manter o trabalho, a casa, o casamento, a saúde e a família de pé (quando foi a última vez que você namorou mesmo??). Incomoda porque nós adultos sabemos que sexo envolve mais do que prazer e mesmo esse, o prazer, nem sempre é fácil de ser negociado com os parceiros, e isso gera medo de que nossos filhos sofram, se frustrem e sejam manipulados. Incomoda porque existem as ISTs, a gravidez indesejada e nós sonhamos outros planos para eles. Incomoda porque nem sempre os parceiros com quem eles resolvem fazer sexo ou namorar se enquadram no padrão que estamos acostumados, ou porque a orientação sexual de nossos filhos não é heterossexual. Mas, para sorte de alguns adolescentes, é o amor que nos salva desse mergulho egoísta, que nos ajuda a desprender das amarras a que nos envolvemos por convicções particulares e muitas vezes, nada originais. Amar implica em ir de encontro a humanidade do outro. A sexualidade é dimensão constitutiva da pessoa, não é inteligente negá-la.

 

A falta de treino

Embora sempre tenha existido iniciativas para o trabalho de educação sexual nas escolas, só nas últimas duas décadas o assunto não é mais sussurrado ao pé do ouvido. Então, pais que tiveram famílias e escolas para as quais sexo era um assunto tabu, não treinaram uma conversa mais natural, descompromissada e sem vergonha. Mas sempre é tempo. Procure usar temáticas que aparecem na mídia para descobrir o que seu filho pensa sobre o assunto, ou seja, vá do geral para depois abordar o “particular”. Perguntar implica em escutar, ou seja, evite comentários cheios de julgamento moral e crítica, pois eles afastam a possibilidade de seus filhos se abrirem, por que acham que estão indo para a fogueira da inquisição. Há uma série de livros que abordam o assunto, destinados a crianças e adolescentes, que são muito úteis, não só para informá-los, mas para eles saberem que estamos ligados nas suas necessidades íntimas. Presenteie.

 

Ana Canosa| Psicóloga clínica, comunicadora,  terapeuta de casais, terapeuta sexual e educadora sexual. Diretora da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana (SBRASH)

E-mail: acanosa@uol.com.br

 

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