Cinderella – Superação da opressão para o desenvolvimento

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O conto de fadas Cinderela sintetiza os sonhos pessoais de qualquer jovem, tanto de mulheres quanto de homens.
Cinderela vivia em um lar próspero e acolhedor. Ainda muito nova, com a morte de sua mãe, seu pai se casou novamente. Sua madrasta já tinha duas filhas de seu primeiro marido, bonitas de aparência, mas orgulhosas, pretensiosas e más de coração. Depois do casamento, as três foram morar na mesma casa e a vida se tornou dura para Cinderela. A madrasta a tratava como criada, como se não fosse parte da família. Então, suas irmãs postiças lhe tiraram os lindos vestidos e a deixaram com um muito velho e cinzento. Passaram a tratá-la com deboche, mandando que fizesse todos os trabalhos domésticos e a partir desse dia Cinderela trabalhava arduamente, desde o nascer do sol. À noite, extenuada pelo trabalho, não tinha uma cama para descansar. Deitava-se perto da chaminé, junto as cinzas do borralho. E, como estava sempre suja por ficar dormindo nas cinzas e na poeira, recebeu o apelido de Gata Borralheira.

No início, Cinderela tinha uma vida tranquila e acolhedora na companhia de seus pais, mas com a morte de sua mãe e o novo casamento de seu pai, tudo se transformou. Possivelmente, os laços afetivos cultivados desde o início da vida de cada indivíduo irão refletir de maneira positiva na estruturação da sua personalidade e podem contribuir positivamente nos conflitos da transição da adolescência para a vida adulta. Adolescentes que tiveram sedimentadas relações promissoras, saudáveis, na primeira infância, provavelmente apresentarão melhores condições para lidar com as mudanças deste período e seus conflitos.

Passado algum tempo, o rei mandou anunciar que daria um baile e nele seu filho herdeiro escolheria sua futura esposa. As duas irmãs orgulhosas foram convidadas para o baile e enquanto se arrumavam debochavam de Cinderela. A madrasta dizia que Cinderela não poderia ir ao baile, pois tanto ela, quanto as filhas, sentiriam vergonha se alguém descobrisse que aquela maltrapilha era parte da família.

Cinderela vivia uma relação de abuso e submissão neste novo período de sua vida. A madrasta tentava escondê-la do mundo, ocultando sua beleza e sua exuberância que estavam florescendo pela entrada do período da adolescência.

Quando todos saíram, Cinderela foi para o cantinho perto do fogão, baixou a cabeça e chorou. De repente, ao erguer o rosto para enxugar as lágrimas, deparou-se com uma velha senhora de sorriso bondoso que trazia uma varinha na mão. Era a sua fada madrinha, que disse à menina que ela iria ao baile.
À fada madrinha transformou a abóbora em carruagem, os camundongos em cavalos, a ratazana em cocheiro, as lagartixas em laçais, os trapos em um vestido esplendoroso e os chinelos em sapatinhos de cristais. Então a acompanhou até a carruagem, recomendando-lhe para sair da festa antes da meia noite, porque quando soassem as doze badaladas tudo voltaria ao normal.
Cinderela então rumou para o palácio, onde atraiu todas as atenções. Ela dançou com o príncipe a noite inteira, distraindo-se com o horário determinado, só ouvindo o relógio da torre quando soou a primeira badalada da meia noite. Assustada, saiu correndo, sem se despedir, e o príncipe a seguiu, mas em seu rastro encontrou apenas o sapatinho de cristal. No dia seguinte, os comentários eram só sobre uma linda princesa que havia encantado o príncipe, mas que ninguém sabia de onde havia surgido.

Cinderela, ao desejar comparecer ao baile, demonstra a motivação de transpor os limites desta relação de submissão e aprisionamento. Na adolescência, ser aceito e admirado fora da família é muito importante confirmando a aceitação de seus valores e qualidades individuais pelo grupo.

Perdidamente apaixonado, o príncipe anunciou que se casaria com a jovem que conseguisse calçar o reluzente sapatinho. As duas irmãs tentaram a todo custo fazer o delicado sapato caber em seus pés, mas não conseguiram.
Quando o príncipe perguntou se morava mais alguma moça na casa, as irmãs e a madrasta responderam a contragosto que morava ali também uma moça maltrapilha e imprestável. O príncipe pediu que a chamassem e quando Cinderela calçou o sapatinho, este lhe coube como uma luva. O príncipe então reconheceu a moça que conquistou seu coração. Alguns dias depois, Cinderela se casou e ambos foram felizes para sempre.

Assim, a personagem percorreu um longo caminho, desde o seu estágio inicial de dependência e maus tratos, até encontrar o príncipe. A imagem do jovem príncipe pode ser considerada a idealização do homem como possibilidade de realização pessoal e garantia de ascensão social, mas o papel real que ele representou na vida de Cinderela foi a possibilidade de que a partir desse encontro no baile do castelo, ela ganhou força e motivação para se libertar da opressão vivida em seu lar. Entretanto, não podemos afirmar que no encontro com o príncipe e com seu casamento ela tenha conquistado consciência de si mesma, pois temos que considerar que o momento cultural em que o conto foi compilado, século XVII e XIX, esperava-se que a “realização” da mulher ocorresse com o casamento, e não com a busca de sua individualidade e independência pautada em suas escolhas.
Perceber que o desenvolvimento pessoal é tarefa individual é essencial neste percurso, uma vez que o outro pode contribuir para este processo, mas não pode ser o responsável pelo desenvolvimento e transformação.

A fada madrinha pode simbolizar as forças primárias introjetadas por Cinderela vinculadas ao amor recebido no início de sua vida pelos seus pais. Esta base afetiva é que irá contribuir para que sua atitude não seja passiva diante das imposições e injustiças vividas com a madrasta e suas irmãs postiças. Com o amor e o cuidado que recebeu no início da infância, Cinderela tem dentro de si um “eu” que acredita e confia em seu potencial, permitindo que ela possa enfrentar e passar por esse período tão duro sem desistir.

O seu sofrimento é nítido; entretanto, a sua força para continuar e acreditar em uma saída e na busca de soluções, se faz presente constantemente. O seu desespero é substituído por aspectos internos positivos, representado pela figura da fada madrinha e dos animaizinhos que a cutucavam vez por outra, não deixando que Cinderela desistisse de sua libertação e mudança.
Além disso, outro fator importante a ser considerado para que se possa sair de situações de opressão, é o reconhecimento da existência do mal e, consequentemente das limitações que ele impõe ao desenvolvimento. O fato de não se acomodar diante dos maus tratos permite que Cinderela consiga sair deste lugar e se liberte, motivada pela busca de uma nova vida.

O sapatinho de cristal também pode ser interpretado simbolicamente de várias maneiras; uma delas é como símbolo de ligação entre dois mundos, pois é por meio dele que o príncipe consegue identificar Cinderela e levá-la para o Castelo. Mas também, pode ser um símbolo de opressão, considerando que os pés de Cinderela deveriam se encaixar naquele modelo especifico pequeno e delicado de um sapatinho de cristal. Portanto, exigir que o adolescente se ajuste a padrões sociais rígidos, pode comprometer a sua liberdade de escolha e o seu desenvolvimento.

 

Adriana Politi | Psicóloga Clinica | Casa de Psicologia

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