Seu filho(a) é superdotado(a), parabéns, você ganhou a sorte grande!

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Seu filho(a) é superdotado(a), parabéns, você ganhou a sorte grande! Será mesmo?

Já percebeu como que, quase automaticamente, buscamos algum sinal de que nossos filhos são super inteligentes. Logo nos primeiros meses de vida já estamos atentos para os possíveis avanços de desenvolvimento que nossos pequenos podem ter. Fazemos isso na conversa com as tias da escola, outras amigas mães, parentes próximos e distantes. Parece que, se de fato a criança tiver um nível intelectual acima da média, podemos ficar tranquilos que a vida será muito mais fácil.

Para instigar uma reflexão sobre o papel da inteligência na satisfação pessoal, convido vocês a explorarem um pouco mais a fundo o mundo da superdotação. Mas vamos começar do início. O que é a superdotação? Define-se a superdotação como uma condição em que a pessoa tem um potencial intelectual muito acima da média esperada para aquela faixa-etária. Tecnicamente, isso significa que o valor do seu quoeficiente intelectual (uma pontuação obtida com alguns testes cognitivos) encontra-se a cima do observado em 95% das pessoas daquela idade, sexo e nível sócio-econômico.

O potencial intelectual de uma pessoa é determinado por múltiplos fatores, inclusive genéticos. Ainda assim, uma criança só conseguirá explorar todo o seu potencial quando estiver diante de estímulos que a desafiem, promovendo situações que irão desenvolver a sua forma de raciocinar, realizar operações mentais e que facilitarão a construção de um pensamento aplicado que sai do plano concreto e permite generalizações dos conceitos.

Assim como a grande maioria, eu também acho que crescer com estas habilidades deve promover algumas facilidades na vida, principalmente em relação aos aspectos pedagógicos, considerando o modelo de ensino das escolas brasileiras. Mas sempre me incomodou o pensamento de que basta ser muito inteligente para ter uma vida mais fácil. Tive a oportunidade de conviver com algumas pessoas que certamente são superdotadas e notei que elas também passaram por muitos perrengues na vida. Foi neste contexto que desenvolvi um estudo que investigou a auto-estima de pessoas com superdotação. Aplicamos um questionário que explorava o auto-conceito, a auto-estima, a capacidade de ter uma ação dirigida à uma meta própria e o quanto se sentiam pessoas que satisfaziam as expectativas do outro. Este questionário foi preenchido por mais de 80 pessoas que pertenciam a uma sociedade que se propõe a reunir indivíduos superdotados (com QI superior a 99% da população brasileira) e o resultado foi alarmante. Em comparação com pessoas com inteligência mediana, os superdotados apresentaram menores valores em todas as escalas de auto-estima investigada.

Quer dizer então que ter uma inteligência acima da média não é o suficiente para garantir a felicidade e a auto-satisfação. Aparentemente, lidar com as expectativas que os outros colocam sobre a criança superdotada traz um novo desafio. Desafio este que as habilidades cognitivas, super amadurecidas nestas pessoas, não estão preparadas para lidar. É o amadurecimento emocional que irá promover as condições necessárias para lidar com este mundo de sensações, aflições e angústias que vem junto com o medo de não corresponder. Infelizmente, as regras da vida fazem com que a balança penda mais para um lado do que para o outro. Muitos dos superdotados se sentem muito mais à vontade quando se trata de temas racionais e práticos do que na dimensão emocional. Portanto, nós, pais, mães, tios, avós, amigos, tios corujas de crianças superdotados temos que tomar um cuidado extra ao evitar supor que, porque uma criança é muito inteligente, ela é capaz de qualquer coisa. Lembre-se que cada pessoa tem maiores facilidades e dificuldades com certos assuntos. Isso vale para todo mundo. Além disso, estas crianças também se deparam com novos desafios a cada dia e algumas vezes terão dificuldade em vencê-los. Um especial olhar deve ser direcionado para o desenvolvimento e amadurecimento do seu mundo emocional. Não se esqueça que tendemos a praticar mais aquilo que é mais fácil para nós. A prática do raciocínio intelectual será sempre mais confortável para grande maioria destas pessoas. Mas é a capacidade de incluir o mundo emocional no cognitivo que dará todos os recursos para estas crianças desenvolverem seu potencial cognitivo e serem felizes na vida.

 

Patricia Rzezak  | Psicóloga e Neuropsicóloga 

Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP | Pesquisadora do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP

Email: patriciarzezak@gmail.com

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