Até quando é normal falar como o Cebolinha? (Parte II)

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Como muitos já o conhecem, o personagem Cebolinha, criado pelo roteirista e ilustrador Mauricio de Souza, caracteriza-se como um garotinho esperto, de cabelos espetados e que troca o som do /r/ por /l/.

As trocas na fala, como a do Cebolinha e de muitas outras crianças que conhecemos, é motivo de preocupação de pais, professores e de grande parte das queixas ouvidas pelos fonoaudiólogos em seus consultórios.

Esse tipo de queixa é o mais frequente dentro das desordens relacionadas a comunicação em crianças com idade pre escolar, atingindo até 10% dessa população.

O fonoaudiólogo é o profissional responsável pela avaliação, diagnóstico e tratamento das desordens de fala, denominados processos fonológicos. Para isso, o profissional faz um levantamento do inventário fonético da fala da criança, levando em consideração sempre: a idade, o tipo de “erros” cometidos, a frequência em que ocorrem e também as variações regionais.

Para que os pais possam entender melhor sobre o desenvolvimento do sistema fonológico, menciono abaixo alguns norteadores¹:

– No primeiro ano de vida, o bebê somente vocaliza alguns sons ainda sem sentido e vai aumentando assim, gradativamente, o seu inventário fonético, alcançando a maior expansão entre um ano e meio e os quatro anos.

– Já com três anos e meio, a maior parte das crianças devem ter adquirido grande parte dos fonemas em posição inicial e final nas palavras. Trocas como do Cebolinha que diz: baLata para barata já não são mais esperadas, assim como a redução das sílabas.

– Dos quatro anos até cinco anos e meio aproximadamente, surgem sons mais complexos como LHA do paLHAço e o arquifonema /S/ de vocábulos como: goStoso ou poSte, assim como o arquifonema /R/ de veRde e coRda e praticamente todos os encontros consonantais. Até os sete anos, a criança já consegue falar palavras como: PLaca, CRuz e tamboR, e não são esperados mais erros na fala.

– Algumas trocas merecem uma maior atenção, pois não fazem parte do desenvolvimento normal de linguagem, são os ensurdecimentos e sonorizações. Exemplos: trocar Bolo por Polo ou DeDo por TeTo; Sapo por Zapo. Nestes casos é necessário que os pais busquem avaliação com fonoaudiólogo.

Além disso atentem-se para fatores como: histórico de otites de repetição, infecção de vias aéreas superiores (problemas de adenoide, alergias, sinusites e asma) nos primeiros anos de vida da criança, assim como o histórico familiar de trocas na fala, pois essas são informações relevantes para o diagnóstico do distúrbio fonológico.

E para finalizar, acredito que apesar de ouvirmos muitos pais dizendo que acham “engraçadinho” a fala infantilizada de seus filhos, assim como a fala do popular personagem Cebolinha, é necessário reafirmarmos a importância do encaminhamento precoce para o diagnóstico e tratamento fonoaudiológico, diminuindo, desta forma, as chances da criança apresentar dificuldades também no processo de alfabetização e da diminuição dos impactos sociais que a criança que não tem a fala compreendida pode trazer.

 

Kerli Saori Ueda | Fonoaudióliga – Crfa 14917/SP

E-mail: kerlisaori@hotmail.com

 

Fontes: 1 Wertzner, H.F. Fonologia: Desenvolvimento e Alterações. In: Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca, 2004, Capítulo 62.

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