A maternidade e nossa bagagem emocional

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Tem muitas coisas que não te contam sobre a maternidade. Talvez porque seja mais fácil olhar a vida sob as lentes das redes sociais e mostrar só alegria e doçuras. Talvez porque formular a avalanche de emoções que sentimos ao nos tornarmos mães seja algo tão difícil quanto as próprias emoções que sentimos. Talvez porque a gente não queira parar para fazer isso porque a carga emocional vai ser ainda mais densa. Mas olhar a maternidade além das lentes da fotografia feliz é um exercício importante que pode nos fortalecer e nos tornar mais…mães!

Acho que o mais próximo que conseguimos formular sobre essa enxurrada de emoções é: agora te entendo, mãe! Pois é! Como passamos a entendê-las. Como queremos dar aquele abraço mudo nelas, porque palavras não vão conseguir exprimir toda a nossa gratidão e nosso amor.

Ao me tornar mãe, sonho antigo, fiz como todas as mães “normais”. Pensei no enxoval, nos móveis, nos aparatos, no pediatra, no parto (mais ou menos), na amamentação, fui assistindo vídeos no YouTube… E fui lá criando minha maternidade imaginária. Daí entra aquela coisa que adoramos falar na internet: expectativa x realidade.

Ninguém me contou que eu sentiria falta da minha mãe como nunca. Falecida em 2013 em decorrência de um câncer, minha heroína que lutou anos a fio para sobreviver a um casamento violento e com ameaças de me tirar da sua guarda, ela só pôs fim a tudo quando completei 18 anos. Dos meus 18 ao 32, quando casei e também quando descobrimos sua doença, vivemos ainda mais uma para a outra, sem o peso do meu pai.

Cada dia, cada minuto lembro dela e parece até que vivo com meu filho coisas que vivi com ela. Pode ser meu imaginário, minha memória afetiva. Agora, tenho que ressignificar o luto, transformá-lo em luz, tirar meu coração do lugar de sombras que permaneceu por tanto tempo para proporcionar o melhor ao meu pequeno.

A maternidade te “devolve” à sua mãe e também à infância, com suas alegrias e dores. Nem preciso dizer que a minha não foi tão colorida. E paradoxalmente, ao viver o momento mais doce e importante da minha vida, também vivo essa viagem às profundezas do meu inconsciente, sentimentos adormecidos reacendem. Como na mitologia, parece que abri uma caixa de Pandora que não desejava.

Assim, sigo caminhando, me aceitando com toda essa bagagem emocional. Também tentando fortemente não me cobrar além da conta. Tentando aceitar a ajuda que me oferecem e que para mim, sempre a fortaleza, é difícil aceitar. Buscando aceitar meus demônios, compreender que eles nunca serão apagados, mas podem, quem sabe, ganhar um significado e finalmente se libertarem de mim e eu deles.

Pois é. A maternidade te traz tudo isso. E por amor, mais até ao seu filho do que a você mesma, você vai buscando tornar os caminhos mais leves e alegres e aceitar sua história passada para construir páginas futuras mais coloridas. Me desejem boa sorte!

Luciana Santos

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