Adolescência Feminina – História e Reflexões

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Ao longo da história as meninas foram educadas entre as mulheres e partilhavam com elas as atividades familiares. A transmissão se operava no decorrer do tempo e o rito de passagem era uma formalidade simbólica, tornando-as, por exemplo, disponíveis para o casamento e para a procriação. Enquanto frequentemente os meninos deixavam o universo feminino e materno para entrar na sociedade dos homens, a entrada das meninas na sociabilidade da sua comunidade ocorria discretamente. Em muitas culturas, as meninas, imediatamente integradas às tarefas domésticas e coletivas, ocupavam-se dos cuidados das crianças.

Sendo assim, a passagem da adolescência se realizava claramente e sem ruptura. M. Mead refere que, muitas vezes, a menstruação era o sinal que conduzia a mudança de status na menina. Em consequência disso, no caso das meninas, muitas vezes, a puberdade era então o sinal da passagem da infância às responsabilidades adultas. Embora se constate a eclosão do período da adolescência no final do século XIX, as meninas continuavam sendo excluídas da escolarização e só recebiam aprendizados domésticos. Essa realidade começa a mudar somente no início do século XX, mas muito timidamente.

É sabido de todos que, ao longo da história em nossa cultura, os ritos de passagem dos meninos sempre foram privilegiados em relação aos das meninas. No entanto, os rituais de passagem das meninas também tinham a mesma finalidade, que era propiciar a passagem para a maturidade social por meio de uma série de etapas determinadas pelo costume. Retornando à Grécia antiga, a cidade era um assunto de homens, as meninas e as mulheres eram relegadas a papéis subalternos. Sua educação visava a prepará-las para a união conjugal, elas existiam somente como esposas e mães. Tanto na Grécia antiga como na Roma antiga, as meninas conheciam somente uma definição: virgens antes do casamento e esposas em seguida. O rito de passagem para a idade da mulher estava vinculado à menarca, ou seja, à primeira menstruação feminina. O momento em que a menina começa a exercer seu ciclo reprodutivo.

Até a Primeira Guerra Mundial, a escolarização concerne principalmente a uma minoria de meninos, e as meninas ficavam totalmente excluídas dessa possibilidade, uma vez que fora do aprendizado doméstico, elas recebiam pouca ou quase nada de educação. Segundo Breton: “A escolarização das meninas começa só no final do século XVIII e no início do século XIX, embora permaneça mais direcionada para as atividades ditas ‘femininas’”.

Assim como os jovens do meio popular, as meninas, mesmo da burguesia, mal conheciam a fase que, hoje, corresponderia ao nosso Ensino Médio, elas continuavam vivendo no lar com a família à espera do casamento. O ensino das meninas é alinhado com os dos meninos somente a partir dos anos 1920, por meio de uma série de medidas políticas. Já nas classes mais populares tanto meninos quanto meninas no verão cuidavam das vacas nos pastos. A escolaridade era mínima e os meninos seguiam com o trabalho no campo e as meninas eram preparadas para o casamento, enquanto os meninos corriam e exploravam os campos, as meninas costuravam, cozinhavam e limpavam.

Elas aprendiam com outras mulheres sobre menstruação, sexualidade, abortos clandestinos e partos. Aos 15 anos as mães confiavam suas filhas a costureiras que as habilitavam com conhecimentos de amores de uns e outros e as experiências sobre a sedução. A partir de 1940, surgem na Europa e na América do Norte escritos retratando meninas no período da adolescência divididas entre o desejo de criação e liberdade e o modelo feminino que seu meio lhes impõe. Muitas não se imaginavam no papel rotineiro de esposa e de mães. Finalmente, no que diz respeito à atualidade, há cerca de 20 anos, a adolescência está impregnada de múltiplos significados. O marketing introduz o termo tween, e meninas entre 8 a 12 anos são convencidas que já são mulheres e o rito de transição ocorre, muitas vezes, pela aparência, vestindo roupas sensuais e de adultos, os cosméticos também ganham espaço, há uma tendência à “objetificação” da menina e da mulher.

Creio ser necessário um trabalho contínuo na busca e garantia dos direitos femininos para a integridade, individualidade e autonomia.

Reverência: David Le Breton – Uma breve historia sobre a adolescência – 2017

 

Adriana Politi | Psicóloga Clinica | Casa de Psicologia

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