O Sino: Adolescência – Ritos de passagem

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O Sino 
(Hans Christian Andersen – 1845)

Adolescência – Ritos de passagem

Esse conto fala de uma grande cidade que embora apresente várias personagens humanas, tem como o centro de interesse o som de um sino, um som maravilhoso ouvido por todos, mas só por curtos momentos, ninguém sabe de onde vem esse som. Era como se viesse de dentro do bosque. O som do sino na história, simbolicamente representa o chamado do inconsciente. Mesmo não sabendo de onde vem, esse som desperta o desejo para o desenvolvimento interior.

Muitos achavam que era um sino de uma igreja e desejavam ir até lá para ver mais de perto. Os ricos iam de carruagem e os pobres a pé, mas achavam sempre a distância tão grande que quando chegavam à orla do bosque, desistiam e permaneciam por algum tempo neste lugar e regressavam satisfeitos para o lar. Esse chamado fomenta o interesse e a curiosidade de todos, sejam ricos ou pobres. Alguns trilham o caminho com mais facilidade e rapidez e outros caminham mais devagar. Contudo há os que nunca encontrarão o significado do som do sino.

As pessoas se inspiravam com esse som. O imperador do país ficou também intrigado com o acontecimento e prometeu àquele que fosse capaz de descobrir de onde vinha o som que lhe outorgaria o título de sineiro universal, mesmo no caso de não se tratar de um sino. Assim partiram muitas pessoas para o bosque, em busca do sustento prometido pelo imperador. Apenas uma voltou com uma espécie de explicação. Ninguém se aventurou a penetrar tão profundamente no bosque, nem tampouco ele, mas afirmou que o som do sino provinha de um mocho muito grande que se encontrava dentro de uma árvore oca. Assim, foi nomeado sineiro universal e escrevia todos os anos um pequeno tratado sobre os mochos, que pouco ou nada adiantava. O mundo do bosque é a representação do mundo desconhecido, assim falsos saberes afirmam possuírem tais verdades e permanecem pretensamente neste lugar.

Num dia solene, meninos e meninas haviam recebido o sacramento da confirmação, esse era um dia muito importante para eles. Transformavam-se de um momento para o outro em pessoas adultas, dotadas de razão. Os meninos e as meninas confirmados saíram da cidade e foram passear no bosque, onde ouviram de um modo maravilhosamente distinto, o som do grande sino desconhecido. Sentiram logo vontade de ir até ao sítio donde partia o som e foram todos, com exceção de três.
Dentre tantos buscadores, os jovens, por serem dotados de coragem, curiosidade e um tanto de ingenuidade se sentem motivados para desvendar o mistério.

Destes três, uma menina quis voltar para casa para provar o vestido de baile, pois fora pelo vestido e pelo baile que se havia confirmado. Outro era um rapaz pobre a quem o seu senhor havia emprestado o paletó e os sapatos para a confirmação e tinha de devolvê-los à hora certa. O terceiro declarou que nunca ia a qualquer lugar desconhecido sem os pais o acompanharem. Percebe-se que entre os jovens há aqueles que não se deixam envolver por vários motivos. No conto a primeira menina estava mais preocupada com sua aparência, o segundo demonstrava não acreditar em seus recursos e o terceiro não se achava capaz sem a presença dos pais.

Os outros se puseram a caminho, mas em breve alguns distraíram-se e desistiram da busca. Nesse momento soou o sino, bem na profundeza do bosque, e tão suave e sereno que quatro ou cinco decidiram avançar. O caminho era tão cerrado e frondoso que se tornava verdadeiramente difícil avançar, mas mesmo assim alguns deles continuaram. Chegaram, então a um local onde havia uma cabana construída com grandes ramos e cascas de árvores onde estava pendurado um pequeno sino. Seria aquele o sino que se ouvia? Muitos acharam que sim, exceto um que declarou ser o sino demasiado pequeno e delicado para poder ser ouvido tão longe, além de que não podia ser aquele o som que tão profundamente penet rava no coração dos homens. Quem assim falou era o filho do rei. Nesse percurso muitos foram desistindo e outros foram achando explicações provisórias que não convenciam. Os que permaneceram foram os dotados de extrema determinação, valentia e entusiasmo. Assim, observa-se que para permanecer nesse caminho é necessário coragem e persistência.

Deixaram-no partir sozinho, mas à medida que ia avançando a solidão penetrava cada vez mais no seu coração. O percurso desse caminho é individual e solitária e assim o filho do rei avança na sua busca.

Mas o som profundo do sino fazia-se ouvir cada vez com mais força. O som vinha do lado esquerdo, do lado do coração. De súbito, ouviu um ruído e surgiu na sua frente um rapazinho com tamancos de pau e uma jaqueta tão curta que as mangas lhe ficavam no meio do braço. Reconheceram-se logo, pois o rapaz era o menino confirmado que não tinha podido acompanhar os outros por ter de regressar a casa para devolver a jaqueta e os sapatos do filho do seu senhor. Fora isto realmente que fizera e depois, com tamancos e um mísero casaco, viera sozinho para o bosque, atraído pelo som forte e profundo do sino. – Podemos ir juntos – disse o filho de rei. Mas o pobre confirmado, com os seus tamancos, sentiu-se tão envergonhado que puxou pelas curtas mangas da jaqueta. Respondeu-lhe que receava não poder acompanhar os seus passos e que, além disso, o sino devia ficar à direita porque era este o lado de tudo quanto era grandioso e magnífico. – Bem, então já não voltamos a encontrar-nos – retorquiu o príncipe, fazendo um aceno de despedida ao moço pobre, que entrou na parte mais escura e espessa do bosque, onde os espinhos começaram a lhe rasgar o rosto, as mãos e os pés, que sangravam abundantemente. O príncipe também recebeu alguns bons arranhões, mas havia sempre Sol no seu caminho. É ele que vamos seguir, pois era um moço de trato agradável. – “Tenho de encontrar o sino”, disse para consigo próprio. “Irei até ao fim do mundo, se for preciso.” Os feios macacos que estavam sentados em cima das árvores arreganharam-lhe os dentes . Mas ele, infatigável, penetrava cada vez mais profundamente no bosque, de onde surgiam flores maravilhosas. Também havia no bosque lagos tranquilos, onde os cisnes brancos flutuavam, batendo as asas. O príncipe, de vez em quando, parava para escutar, crendo, muitas vezes, que era de um desses lagos profundos que o som do sino vinha, mas logo verificava que não, vinha do fundo do bosque. O filho do rei penetra no mundo desconhecido do bosque e encontra o menino pobre, que também conseguiu vencer todos os obstáculos para chegar até ali. Embora cogitem seguir juntos, decidem ir por caminhos diferentes. Verifica-se que o jovem rico, filho do rei, mesmo enfrentando dificuldades, percorre um caminho florido com muito sol com lagos tranquilos habitados por lindos cisnes, já o caminho trilhado pelo menino pobre é escuro e inóspito lhe causando ferimentos pelo corpo.

Lembre-se que estamos seguindo o filho do rei. Então sobreveio o pôr do Sol, o céu ruboresceu como se ardesse e tudo pareceu calmo no bosque, tão calmo que ele se deixou cair de joelhos dizendo: – Jamais encontrarei o que procuro! O Sol vai se por agora, vem aí à noite, a noite tenebrosa. Talvez possa ver, porém, uma vez mais, a bola rubra do Sol antes que desapareça completamente por detrás da terra. Vou subir àqueles rochedos, que são tão altos como as mais altas árvores. Agarrando-se aos ramos e às raízes subiu nas pedras úmidas. Chegou lá acima antes de o Sol se ter posto completamente. Que magnificência! O mar, o majestoso mar, lançando as grandes ondas contra a costa, este ndia-se na sua frente e o Sol era como um grande altar luminoso, onde a água e o céu se uniam. Tudo se mesclava em cores radiantes, o bosque cantava, cantava o mar, e o coração do príncipe acompanhava-os. Toda a natureza parecia um grandioso templo e o céu a própria cúpula. Por fim, quando o Sol desapareceu, sumiu-se também a cor rósea, e milhões de estrelas acenderam-se. Brilhavam milhões de lâmpadas de diamante. O príncipe abriu os braços para o céu, para o mar e para o bosque. Então apareceu, à sua direita, o pobre menino, das mangas curtas e dos tamancos de pau. Também ali havia chegado pelo seu caminho. Correram um para o outro e deram as mãos, no grande templo da Natureza e da Beleza. Sobre eles soou o sagrado sino invisível.

Por caminhos muito diversos, marcados pela oportunidade ou falta de oportunidade que seu lugar social determina, os dois jovens cumprem seu projeto de desvendar o mistério do som do sino, enfatizando a importância da perseverança, determinação e coragem. O conto nos mostra também que tanto ricos como pobres, mesmo trilhando caminhos diversos são capazes de atingir seus objetivos.

Pequena Reflexão

Percebemos nesse conto de Andersen que o som do sino chega para todos, sem distinção de classe social. Parece que o grande diferencial encontra-se nos recursos internos de cada um. O som que todos ouvem é interpretado como o som de um sino, mas verdadeiramente ninguém consegue encontrar o “objeto” imaginado. Sendo algo desconhecido, a fonte de onde provinha esse som permitia que as pessoas soltassem sua imaginação criando histórias e poemas para seus deleites. Mas também despertava a ambição, pois o individuo que detivesse o saber desse som, seria reconhecido e respeitado por todos como um sábio usufruindo de privilégios.

Dentre tantas questões importantes, esse conto nos traz os ritos de passagem vividos pelos adolescentes. Nessa comunidade o percurso entre a infância e a maturidade social, não dura mais que o tempo da cerimônia religiosa de crisma. Ao término dela, a antiga criança se torna, de acordo com as indicações culturais e religiosas, um adulto. Entretanto a verdadeira travessia exigirá desses jovens coragem, esforço, persistência e determinação, condições mentais necessárias para superar frustrações e continuar perseguindo o objetivo a que se propuseram. Todavia, nesse período é importante que os jovens se des liguem do investimento que os pais e a comunidade tradicional colocaram neles, buscando sua prova de verdade pelo gosto de viver. (LE BRETON,2017). Quando os jovens partem na busca do som do sino nas profundezas do bosque, estão desvinculando-se do conhecido e lançando-se para o desconhecido na conquista de uma identidade diferenciada. A diferenciação e oposição aos pais e as normas pré-estabelecidas, são de extrema importância para que esses jovens adquiram autonomia e confiança.

Tendo em vista que a transição entre as fases do desenvolvimento não se dá de forma suave, podemos ter a compreensão do fato de que na adolescência, há um período de conturbação da consciência. Tal desordem vivida, muitas vezes como catastrófica para a psique, pode gerar ansiedade, insegurança, comportamentos impulsivos e labilidade quanto às atitudes. Mas a necessidade de se perder para encontrar um novo caminho é necessária e imprescindível para que ocorra a transformação e o crescimento individual.

 

Adriana Politi | Psicóloga Clínica especialista em psicoterapia Junguiana e saúde mental – Membro Candidata do IJUSP, filiada a AJB e IAAP

Email: spauloncipoliti@uol.com.br


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