Quando Sua Filha Desafia a Biologia

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O fardo das mães cujas crianças sofrem de “disforia de gênero de início rápido”.

Por Abigail Shrier

Tradução Claudia Hemsi Leventhal

Alguns meses atrás, uma leitora me contatou usando um pseudônimo. Tratava-se de uma proeminente advogada do sul com uma questão sobre a qual desejava que eu escrevesse a respeito. Sua filha, com idade para cursar a faculdade, sempre fora uma garota estilo bem “menininha” e precoce intelectualmente, mas sempre havia batalhado com ansiedade e depressão. Gostava de garotos e teve namorados no ensino médio, mas também enfrentava desafios sociais e muitas vezes se encontrava fora das “panelinhas”.

A jovem mulher foi para a faculdade – que começou, como acontece com freqüência esses dias, com um convite para declarar seu nome, orientação sexual e “pronomes”. Quando sua ansiedade disparou durante o primeiro semestre, ela e várias de suas amigas decidiram que sua angústia tinha uma causa moderna: “disforia de gênero”. Ao longo do ano, a filha da advogada começou a usar testosterona. Sua verdadeira droga – aquela que a viciou – foi a promessa de uma nova identidade. Cabeça raspada, roupas de menino e um novo nome formaram as águas batismais de um renascimento de fêmea para macho.

Este é o fenômeno que a pesquisadora de saúde pública da Universidade Brown Lisa Littman identificou como “disforia de gênero de início rápido”. DGIR difere da disforia de gênero tradicional, que é uma doença psicológica que começa cedo na infância e se caracteriza pela sensação severa e persistente de que uma pessoa nasceu no sexo errado. DGIR é um contágio social que aparece de repente na adolescência, atingindo pessoas que jamais tiveram confusão alguma a respeito de seu sexo.

Assim como em outros contágios sociais como cortar-se e bulimia, a DGIR afeta majoritariamente meninas. Mas diferentemente de outras, esta condição – e não necessariamente os que sofrem dela – recebe total apoio de comunidade médica. O padrão para lidar com adolescentes que declaram ser transgêneros é “cuidado afirmativo” – imediatamente aceitando a identidade declarada pelo paciente. Claro que há alguns que discordam. “Essa idéia de que como terapeutas devemos ‘afirmar’; isso não é meu trabalho”, diz a psicoterapeuta Lisa Marchiano. “Se trabalho com alguém realmente suicida porque sua esposa o deixou, não vou ligar para a esposa e dizer ‘Ei, você tem que voltar’… não tratamos suicídio dando às pessoas exatamente o que elas querem”.

Porém, ceder às demandas dos pacientes é o que a maioria dos profissionais da área médica fazem ao serem confrontados com a DGIR. Assim como nos trágicos maus diagnósticos da moda que ocorriam no passado, este vem com traumas físicos irreversíveis. “Cirurgia de cima” (top surgery), que é um eufemismo para dupla mastectomia. Infertilidade. Arredondamento permanente da face ou deixar a mandíbula mais quadrada. Pêlos no rosto e corpo que jamais vão embora.

A organização Planned Parenthood fornece testosterona para jovens mulheres na base do “consentimento informado”, sem solicitar qualquer avaliação psicológica. Planos de saúde para estudantes em 86 faculdades – incluindo os de quase todas as escolas pertencentes à Ivy League – cobrem não apenas hormônios para troca de sexo, mas também cirurgias.

Adolescentes com DGIR tipicamente sofrem de ansiedade e depressão numa fase difícil da vida, quando a confusão é tão generalizada quanto a diversão, e em todo lugar há a sensação de que eles deveriam estar no melhor momento de suas vidas. Conversei com 18 pais, 14 deles mães – todas articuladas, intelectuais, escolarizadas e feministas. Explodiam de orgulho pelas filhas que, até serem atingidas pelo feitiço da DGIR, eram muito capacitadas e a caminho de universidades de ponta. Exceto duas mães cujas filhas desistiram, todas as outras insistiram no anonimato. Têm pavor de que as filhas descubram o quanto são contrárias à situação e rompam o contato. Estão determinadas a usar toda a influência que ainda têm para interromper a próxima desfiguração voluntária de suas filhas.

Quase toda força da sociedade está alinhada contra esses pais: igrejas se esforçam para reescrever suas liturgias para favorecer maior “inclusão”. Terapeutas e psiquiatras minam a autoridade dos pais com a chancela imediata dos auto-diagnósticos feitos pelos adolescentes. Orientadores de campus alegremente encaminham alunos para clínicas que distribuem hormônios na primeira visita. Leis contrárias à “terapia de conversão”, cujo pretexto é curar a homossexualidade, estão escritas em 14 estados americanos e no Distrito de Columbia. Esses estatutos também proíbem “esforços para mudar a identidade de gênero de um paciente”, nas palavras da lei de Nova Jersey – efetivamente ameaçando orientadores que poderiam dissuadir adolescentes de prosseguirem com tratamentos hormonais ou cirurgia.

Reddit, Tumblr, Instagram e YouTube fornecem uma infindável fonte de mentores, que documentam entusiasticamente suas próprias transições físicas, omitindo menções a respeito de efeitos colaterais perigosos e oferecendo dicas de como se fazer passar por homem e como romper com pais que não apóiam a mudança. Para adolescentes ansiosos tendendo à obsessão, estes vídeos podem ser hipnotizadores. Embora as estrelas geralmente sejam mostradas sozinhas em seus quartos, elas projetam exuberância e élan social. Conforme uma guru do YouTube que passou de mulher a homem e atende por ‘Alex Bertie’ diz, “Usar testosterona foi a melhor decisão que já tomei. Estou tão feliz comigo mesmo. Não resolveu todos os meus problemas, mas me deu a força para fazer o melhor com a minha vida e combater meus outros demônios, como minhas questões sociais”.

Brie Jontry, porta-voz da Fourth Wave Now, rede internacional de apoio a essas famílias, é uma das duas mães que conversou comigo publicamente. Ela me contou que adolescentes com DGIR vêm de famílias politicamente progressivas. Muitas das mães com quem falei dizem que apoiavam entusiasticamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, antes mesmo que fosse legalizado em qualquer lugar. Algumas descrevem terem recebido bem a notícia de suas filhas se assumirem lésbicas. Mas quando suas filhas decidiram de repente que eram na verdade homens e começaram a clamar por hormônios e cirurgias, as mães imploraram para que reconsiderassem, ou ao menos desacelerassem.

“Se seu filho fosse embora e se unisse a um culto religioso polêmico, as pessoas lamentariam por você, e entenderiam que isso é ruim e que seu filho não deveria pertencer a esse culto”, disse uma das mães, antiga líder da organização pró-gay Pflag. “Na situação em que estou não posso sequer contar pra alguém. Só converso com meu marido”. O casal paga fielmente as anuidades, plano de saúde e contas de celular da filha – embora ela se recuse a falar com eles.

Sob a influência da testosterona e o encantamento da transgressão, as filhas da DGIR tornam-se impertinentes e agressivas. Sob a bandeira dos direitos civis, acreditam estar num padrão moral superior. Suas mães se escondem atrás de pseudônimos. À medida que as filhas da DGIR se revoltam contra a biologia que desejam desafiar, suas mães suportam o fardo, e que evidencia seu instinto materno – a recusa teimosa em abandonar seus jovens.

Sra. Shrier é uma escritora radicada em Los Angeles.

 

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