Obesidade e má nutrição

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Atualmente, são 17% de crianças obesas no Brasil, sendo 2 milhões de crianças por ano, classificadas com aumento de peso em relação ao parâmetro mundial de idade e altura ( IMC = índice de massa corpórea ).

Esse número é preocupante para a saúde pública pois 8 dos 10 adolescentes obesos se tornam adultos obesos que serão portadores de doenças graves como diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.

Antigamente, o parâmetro de saúde era bem diferente do que encontramos hoje.

A medicina avançou e identificou que as dobrinhas, barriguinhas e bochechas exuberantes se tornarão grandes problemas de saúde no futuro e que esse biótipo não é mais bonitinho tanto quanto a magreza que vemos nos adolescentes, principalmente as meninas que devido ao aumento do uso de redes sociais e selfies se privam de todos os tipo de alimento para atingirem seus objetivos malucos de barrigas negativas.

Hoje, estamos mais informados do parâmetro de saúde ideal , relacionado ao eutrofismo, classificação de IMC em torno dos 50% da população mundial em peso e altura. O pediatra é o médico responsável por essa verificação, identificação de desencadeadores quando há desequilíbrio e orientação de terapias individualizadas.

O entendimento nutricional também mudou e dá-se muito mais valor a uma dieta balanceada com abundância de alimentos ricos em fibras, vitaminas, gorduras insaturadas e proteínas de alto valor biológico que aos farináceos, açucares, sal e gorduras trans. Felizmente, vemos campanhas de redução desses itens até em redes de fast food devido ao elevado impacto na mortalidade precoce mundial relacionada aos obesos. Essas campanhas atingiram a notoriedade mundial com duas personalidades que merecem admiração, a ex primeira dama norte americana Michelle Obama e o chef inglês Jamie Oliver.

Atualmente, também somos uma sociedade mais consciente da importância da prática de atividade de física de maneira regular e da cessação do tabagismo, principalmente na adolescência. Infelizmente, o consumo de álcool  nessa faixa etária não sofre o impacto da restrição de venda aos menores de idade e a ingesta está cada vez maior o que também contribui para ganho de peso e demais malefícios de dependência química e distúrbios psiquiátricos.

Partindo do principio que a conscientização de uma dieta balanceada e da importância da pratica de atividade física já serem assuntos difundidos, a parte difícil está na colocação disso em prática.

O tempo é curto, faz-se muita coisa num dia só, perde-se muito tempo no deslocamento nas grandes cidades, a mãe e o pai trabalham fora de casa fazendo com que a alimentação tenha que ser rápida. A refeição que não exige muito tempo de preparo costuma ser de baixo índice nutricional e com muito carboidrato, o famoso prato branco!

O celular, Tv e Ipad aliados a falta de paciência dos pais existem para nos levarem para uma outra realidade da que deveríamos ter. Sabemos que a utilização desses dispositivos para distrair as crianças acaba atrapalhando no desenvolvimento do paladar, na percepção de saciedade e contribui para o ganho de peso a longo prazo e escolhas alimentares erradas futuramente. Esses itens quando entram numa rotina da criança afastam as mesmas da pratica e atividade física e contribuem ainda mais pro ganho de peso.

A falta de tempo não acontece só pras refeições mas também pra realização de um supermercado consciente e da atividade física de maneira regular.

Esse comportamento é estressante e gera sentimentos de culpa e ansiedade  nos pais contribuindo para a formação de um ciclo vicioso de desequilíbrio orgânico e de problemas na relação com os filhos. Da mesma maneira que a criança fica irritada quando está cansada e estressada e faz birra, os pais quando estão muito cansados e estressados também se prejudicam com a falta de paciência para conversar e tornar o momento da refeição uma hora gostosa.

A organização da rotina facilita o início de uma mudança, mas a criança não fará isso sozinha. Portanto, o início da mudança tem que acontecer nos pais. Nesse momento que gosto de indicar acompanhamento de coaching e psicologia.

O açúcar refinado é extremamente viciante e comparado a drogas pesadas, como a cocaína, que estimula o cérebro em determinadas áreas e , sendo esse o motivo de quanto mais açúcar se come mais se quer comer.  Esse mesmo motivo é o grande responsável pela irritabilidade de uma criança que interrompe a ingestão de elevadas quantidades de açucares e carboidratos quando entra em dieta. Os pais relatam surtos de agressividade, piora de rendimento estudantil e alterações de sono. Quando isso acontece, os pais se veem num sofrimento e acabam cedendo as exigências dos filhos ao consumo do “purinho” que é o macarrão puro, arroz puro e doce puro. As crianças costumam cansar seus pais com mais facilidade que os pais a seus filhos, elas tem mais reserva física pra isso, não trabalham, não possuem mais outros mil problemas pra resolver, e não estão se sentindo culpados.

Os filhos nunca podem ter o comando dessa batalha pois os mesmos não possuem entendimento dos benefícios e malefícios de uma dieta pobre em nutrientes e rica em açucares, carboidratos e gorduras. Uma criança obesa pode ser nutricionalmente igual a uma criança muito magra e desnutrida. A gordura da obesidade pode esconder um déficit importante de vitaminas e minerais que acarretarão em falha de crescimento e desenvolvimento orgânico e intelectual, envelhecimento precoce, falta de energia e disposição além da predisposição a alergias e infecções.

A criança não vai comer adequadamente se os pais não proporcionarem isso, sendo através de exemplo pessoal e disponibilidade desses alimentos corretos. É comum, corrigirmos no consultório primeiro os hábitos dos pais para vermos resultados nos filhos. A criança não vai se esforçar em comer escarola se os pais comem pizza no jantar, pelo simples fato de que a pizza é mais saborosa e viciante ao cérebro.

São muitas as crianças que não sabem a origem dos alimentos, que não conhecem variedade de frutas e que nunca comeram nenhum tipo de verdura. São raríssimos os casos de crianças que gostam de espinafre logo na primeira vez que experimentam porque o sabor é amargo e não estimula o cérebro da mesma maneira que algo doce mas se a mãe iniciou esse contato desde a gestação e logo nas papinhas salgadas com outros alimentos fica mais fácil a aceitação após algumas insistências.

É importante que os pais a levem aos supermercados e hortas, que deixem seus filhos tocarem os alimentos, se sujarem e experimentaram sabores diferentes, mesmo que sejam ácidos ou azedos e que plantem juntamente com filhos.  Alguns livros infantis super interessantes abordam esse tema da alimentação e a sua leitura pode proporcionar um prazer triplo e eficaz : atenção dos pais, estímulo intelectual e orientação alimentar.

Toda atividade que os pais dedicam tempo e amor terão repercussões positivas nos seus filhos. Esse momento de conversa, de como nasce um alimento, como ele faz seu corpo crescer e te dá forças para brincar é fundamental. Pode não funcionar na primeira vez mas quanto mais houver repetição desses novos hábitos mais próximo do sucesso se está.

Gosto de ressaltar que gosto, hábito e birra são três coisas bem distintas e muito importante de serem reconhecidas. Uma orientação profissional é sempre o melhor aliado tanto nos casos de obesidade e má nutrição. Serão os médicos, psicólogos e nutricionistas que vão guiar os pais nessa batalha e seus desafios individualizados. Existem fases, em torno de 3 a 5 anos que as crianças se tornam mais seletivas aos alimentos e definem se gostam ou não de um sabor e na adolescência que identificamos o maior consumo de doces e refrigerantes. Portanto, a nutrição é um processo e merece atenção constante, em todas as fases da vida.

Dra Juliana Giorgi | CRM 116840 Médica Clinica Geral e Cardiologista do Hospital Sírio Libanês em São Paulo e fundadora do grupo multidisciplinar de atendimento a crianças com distúrbios alimentares de obesidade e má nutrição.

 

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