Os desafios da alimentação infantil

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A alimentação infantil é um dos assuntos mais desafiadores na criação de um filho. Toda família tem uma criança que não come bem ou uma que come demais e uma mãe que provavelmente sofreu com seu peso na gestação ou no aleitamento materno.

O primeiro desafio é  a alimentação já na gestação. Sabe-se que a relação do peso da mãe na gestação diz muito sobre a relação futura de seu filho com o peso. A gestação é um período turbulento pra mulher se manter equilibrada com o seu peso. A gestante pode ter náuseas, vômitos, seletividade a determinados alimentos e ao mesmo tempo muita fome e algumas restrições de atividade física. Tudo isso, dificulta uma relação simples e amigável com a balança. A solução, que não é simples, é escolher alimentos saudáveis, comer pequenas porções fracionadas e se possível sob a orientação de um nutricionista.

Há estudos internacionais que afirmam haver relação direta do consumo de alimentos na gravidez com o paladar do feto. Essa relação do bebê ainda em fase intra-uterina influência nas preferências alimentares futuras da criança. Isso acontece, porque as papilas gustativas – aqueles pontinhos que temos na língua responsáveis por detectar as variedades de sabores – começam a se formar na sétima semana da gestação. Os sabores doce, salgado, amargo e ácido são sentidos por meio do contato do líquido amniótico do saco gestacional da mãe com essas papilas degustativas e imprimem informações de sabores no cérebro do bebê.

O segundo desafio na alimentação infantil é o aleitamento materno. Infelizmente, somente 40% das crianças recebem aleitamento materno exclusivo até os 6 meses por dados da UNICEF. Esse baixo índice reflete que o ato não é uma tarefa fácil, como a maioria pensa. A mãe precisa de informação dos enormes benefícios que esse ato traduz ao seu filho, cuidar de sua saúde e de muita persistência para atravessar períodos de baixa produção, possíveis infecções nos mamilos, rejeição do bebê em pegar o bico e uma rotina que permita uma produção suficiente para esse ato tão primordial.

As crianças que receberam leite industrializado puro ou acrescentados a formulas farináceas ou açucares na forma de achocolatados ou até bebidas de cola quando muito pequenos possuem riscos mais elevados de obesidade pelo resto das suas vidas.

Nos casos de extrema dificuldade ao aleitamento materno, a mãe deverá receber orientação especializada do médico pediatra para introdução do melhor tipo de leite industrializado para seu filho.

Até esse momento, falamos da contribuição exclusiva da mãe na alimentação de seu filho, seja na gestação ou através do aleitamento materno. Já estava bem complexo até aqui e fica ainda mais difícil quando temos que lidar com a vontade, paladar e personalidade de uma criança que está descobrindo e conquistando seu espaço no mundo.

A criança muitas vezes utiliza o comer ou não comer como um ato para chamar a atenção daquelas que ela ama e precisa ou isso aparece como sinal que algo não anda bem, seja uma doença, uma alteração comportamental ou um hábito inadequado que muitas vezes nem é dela. Praticamente um enigma cheios de armadilhas.

Acho importante alertar sobre a observação da presença de alergias alimentares quando há recusa insistente de determinado alimento e manifestações orgânicas  de alterações de hábitos intestinais (vômitos, diarreias e constipação) e lesões de pele.

As Infecções também podem ser responsáveis por falta de apetite quando ocorrem de maneira intermitente.

Os distúrbios psicológicos, como ansiedade e depressão que podem aparecer em diferentes faixas etárias também podem se manifestar através da compulsão ou inapetência.

São muitas variáveis para serem observadas e cuidadas. Seja alimento pra mais ou pra menos, nenhum dos dois cenários é favorável quando de maneira prolongada e por isso a abordagem multidisciplinar técnica vai guiar os pais a vencer essa batalha tão complexa.

Dra Juliana Giorgi | CRM 116840 Médica Clinica Geral e Cardiologista do Hospital Sírio Libanês em São Paulo e fundadora do grupo multidisciplinar de atendimento a crianças com distúrbios alimentares de obesidade e má nutrição.

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