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Praticamente todos os dias recebo ligações de pais e mães. Metade deles gostariam de conversar sobre circuncisão e a outra metade sobre “a tal da cirurgia da fimose”. Então, inicio meu discurso.

Ninguém nasce com fimose. Nenhum médico é capaz de prever quem, no futuro, irá necessitar de cirurgia. Apesar da maioria dos recém nascidos não serem capazes de expor a glande (a pele que recobre a cabecinha do pênis não retrai), isso não se configura como doença.

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Bem, se ninguém consegue dizer quem vai precisar operar no futuro, por que operamos?

Operamos porque queremos, judeus e muçulmanos o fazem por questões religiosas. Pais que operaram e tiveram uma experiência ruim gostariam que os filhos não passassem pelo mesmo. Outros pais querem o filho tenha o mesmo “modelito”. Em algumas famílias, membros sugerem que o pênis circuncisado é mais fácil de ser limpo.

Quando consultamos o tema na internet, observamos opiniões a favor e contra, muitas passionais. E praticamente todas, tanto as a favor ou contra, carecem de fundamentos científicos. Ou seja, em termos populacionais não existe resposta certa ou errada.

Circuncisar tem dois benefícios claros. Bebês terão menos infecção urinária e homens terão menos chance de adquirir AIDS de mulheres contaminadas. Esses são os dois únicos benefícios comprovados pela literatura médica.

Quanto mais cedo a criança é operada, mais fácil a recuperação, mas pior a qualidade da indicação cirúrgica. Não houve tempo para que a o prepúcio se abrisse espontaneamente.

Por outro lado, se eu aguardar até a adolescência, digamos 16 anos, a indicação será muito sólida pois demos todas as possibilidades de resolução. E a recuperação da cirurgia será muito incômoda. Nessa linha do tempo, cada família se instala onde se sente confortável. Não há uma única resposta certa.

É importante ressaltar que a circuncisão no primeiro mês de vida é feita apenas sob anestesia local, enquanto após o primeiro ano de vida a anestesia é geral.

Se pudesse resumir minha posição em uma frase, diria:

O casal deve se perguntar se gostariam de ter um filho circuncisado, por qualquer das razões acima. No caso da resposta ser afirmativa, quando mais cedo melhor. Amanhã será um pouco pior do que seria hoje e assim sucessivamente a cada dia.

Décio Blucher,
cirurgião pediátrico e mohel certificado
CRM 63233