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Eu sempre tive o sonho de ter uma família grande, com muitos filhos em volta da mesa, casa cheia aos sábados, domingos e nos Natais.

Aos 22 anos, eu já estava casada e grávida. Sim, assim vapt-vupt! Aos poucos o susto e o medo dessa empreitada de ser mãe, deram lugar há uma gostosa ansiedade e um novo horizonte para mim, meu marido e toda nossa família. Meu feeling de mãe me avisava: vem menino por aí. Eu falava com toda convicção que nasci para ser mãe de menino. E o primeiro tapa que eu levei da vida foi esse:.

“-Que menino o que!”, dizia o médico. M-E-N-I-N-A!!!

“- Olha direito, doutor. Acho que o senhor está enganado!!”.

Não, não estava. Tive que assimilar e me conformar. Mais será que eu seria uma boa mãe? Já comecei errando logo de cara!
Em outubro, Júlia chegou. Linda, corada e cheia de vida. O mundo ganhou outro sentido, eu me joguei de cabeça nesse mundo e passei a ser mãe em tempo integral. Entre peito pra cá, peito pra lá, fraldas e mais fraldas, eu não via o tempo passar. Curtia cada minuto ao lado dela.

Ela, sempre com algum lacinho em seus cabelos pretos, olhos azuis da cor do céu e sorriso no rosto, Júlia estava sempre dando risada e dançando, mesmo sem música. Era insuportável a atenção que ela atraía. Todos os porteiros, senhorinhas, o moço da farmácia, o pessoal da padaria, do mercadinho, das lojinhas, todos no nosso bairro conheciam a Júlia. Ela mexia com todos. E era assim onde nós fossemos. Eu, sempre meio introspectiva, tive que aprender forçadamente a socializar mais por conta dela. Afinal, eu não tinha outra opção. Era uma criança gostosa de conviver, não dava trabalho nenhum, exceto duas coisas. Júlia não dormia no berço nem ‘’amarrada’’, somente conosco, na nossa cama de casal. E, também não pegava mamadeira, copo ou afins. Era somente o leite direto da fonte: peito. Então ok! Depois de muitas tentativas, dá-lhe peito e cama compartilhada! E que gostoso era dormir nós três juntinhos.
Júlia fez um ano ao seu estilo. Dançando, encantando e mamando bastante. Eu e meu marido estávamos encantados por esse universo que só quem é pai e mãe entende. Apaixonados por nossa filha e por tudo que ela vinha nos proporcionando em diversas áreas de nossas vidas.
Após um mês do seu aniversario, Júlia faleceu. Assim, vapt-vupt também. Depois de três dias de febre, com o diagnóstico de virose, Júlia nos deixou. Ela contraiu meningite pneumocócica. Mesmo vacinada, super saudável, em aleitamento materno e comendo de tudo. Foi o segundo tapa que a vida me deu. Inexplicável. Fomos por quatro vezes ao pronto socorro, o pediatra dela a examinou e ninguém, ninguém foi capaz de detectar nada!? Raiva. Revolta. Dor. A solidariedade de quem nem nos conhecia, o apoio de amigos e familiares, as orações sem fim (independente da religião). Foi isso que nos manteve de pé.
E um mês após a morte da Júlia, quase véspera de ano novo, um susto: eu estava grávida!!! O que? Como? Por quê? Deus tá de sacanagem, né? Eu já estava grávida e eu não sabia ainda. A notícia fez renascer a vontade de viver e a esperança em nossa família. Lembro-me até hoje das pessoas emocionadas, chorando, quando contávamos a novidade.
A Júlia me fez crescer em todos os sentidos. Através dela me tornei mulher, descobri o amor de mãe, amadureci o amor pelo meu marido que sempre esteve ao meu lado em todos os momentos. Tanto a minha família, quanto a do meu marido, estavam sem nenhuma criança há bastante tempo. A Júlia veio nesse momento, trouxe a leveza que só uma criança tem. Uniu as famílias, reaproximou os que estavam distantes, trouxe vida para muitas vidas. E o mais incrível de tudo isso, sem saber falar nenhuma palavra.
Tivemos demonstrações suficientes, que nos levaram a entender que, apesar de muito precocemente, a Júlia partiu porque tinha cumprido a sua missão. Ela ensinou amor, alegria e união por onde passou. Sua meningite não foi diagnosticada por ninguém porque era assim que era para ser. Nós é que temos a mania de querer controlar tudo! Hoje, acredito que ela só dormia conosco e só mamava no peito, porque assim foi a forma encontrada para estarmos sempre juntos, aproveitando ao máximo cada instante.
E quando nós achávamos que nada mais havia sentido, a vida novamente nos deu mais um tapa e nos mandou o Davi, antes mesmo da Júlia partir ele já estava ali, só esperando o momento certo de aparecer. O meu MENINO! Tão especial também. E depois do Davi, veio o recém-chegado, Antônio, meu docinho, muito parecido fisicamente com a irmã. E cá estou eu, 28 anos, mãe de dois meninos, como eu sempre soube.
A Júlia me visitou em sonho, apenas uma vez. Foi lindo e emocionante. Apenas me olhou, com seus olhos sempre tão intensos e me disse:

‘’- Não foi culpa de ninguém, mamãe. Eu amo você.’’
Hoje eu sei que a Júlia sempre foi um anjo.

Esse grupo, o Mamis na Madrugada é muito especial e foi através de uma amiga muito querida para mim e que sempre esteve ao meu lado, que eu entrei nele. Desejo à todas as mães que tiverem a oportunidade de ler essa minha história brevemente resumida aqui, muito amor para dar continuidade nessa tarefa nada fácil que é criar um filho. Cansa, consome, nos faz adiar planos, nos sentir culpadas e até mesmo arrependidas. Mas, no final é tudo o que vale a pena.

Com muito carinho,

Marina Zerbinatti.