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A face do bebê é considerada a sua janela para o mundo, pois é a partir dela que o mesmo irá realizar a sua primeira comunicação com o ambiente adverso. As estruturas anatômicas responsáveis por três dos cinco sentidos estão na face, sendo os olhos, o nariz e a boca, estruturas que são formadas por volta da 8° a 10° semana de vida intrauterina. Antes mesmo do nascimento, o bebê já é um ser inteligente, altamente sensível, com traços de personalidade, tendo uma experiência emocional de afeto, extremamente ligado à mãe. Por volta do 28º dia após o fenômeno da concepção, a boca abre pela primeira vez e, com 12 semanas o feto já chupa o dedo, iniciando a sua função de sucção, ainda dentro do útero materno. Ao vasculhar a literatura em busca de explicações científicas, encontramos artigos que classificam a sucção como uma função de natureza extremamente complexa, de alto poder proprioceptivo e forte influência emocional sobre o feto, repercutindo ao longo da vida do homem. Ainda durante a vida intrauterina, o tato é a primeira sensação a se desenvolver, através da pele que reveste as estruturas do embrião em formação. A inervação da boca provém do cérebro, por meio de cinco nervos cranianos diferentes, conferindo à boca um alto poder proprioceptivo, ou seja, com uma extrema capacidade de responder frente a estímulos específicos. Para que a sucção se desenvolva inicialmente é necessária uma função tátil bem desenvolvida, uma vez que tal função se relaciona diretamente com o reflexo de sugar. A função tátil desenvolve-se por volta da 7° semana de vida intrauterina e, com a formação do palato do bebê, a língua passa a se movimentar para frente e para trás, tocando-o, sendo a primeira experiência tátil do feto, fazendo com que ele inicialmente perceba que a boca existe e que através dela é possível perceber e responder. Uma Abordagem Sobre o Desenvolvimento Intrauterino A Odontologia intrauterina, entre seus diferentes assuntos, contempla tópicos relacionados ao desenvolvimento de funções orais do bebê, sendo uma dessas funções a sucção, que se inicia ainda na vida intrauterina por volta de 12 semanas da embriogênese. A sucção, conforme já descrita anteriormente, é uma função complexa extremamente relacionada à propriocepção e emoção, vinculada ao tato, que também é desenvolvido no útero, proporcionando prazer ao bebê. De acordo com Margaret Ribble, o recém-nascido tem três necessidades básicas para que possa sobreviver, sendo elas o oxigênio, o alimento e o afeto. Percebe-se que a boca é um ambiente extremamente ativo, que proporciona o desempenho de funções vitais imprescindíveis ao embrião em diferentes etapas do desenvolvimento. A literatura é bem clara quando diz que através da boca o bebê cria seus primeiros vínculos com o mundo. De acordo com Freud, o homem passa por um período de seu desenvolvimento psicológico denominado de fase oral, que vai do nascimento até o 18° meses de vida, resultando em grande prazer ao bebê quando da manipulação da boca e seu arredor. Sugar, mastigar e morder são as principais fontes de prazer nesta fase, além de ajudar a reduzir tensões do bebê. Através da boca o bebê se relaciona intimamente com a sua mãe em sua nova etapa fora do útero. A boca representa muito para o desenvolvimento psicológico da criança, sendo a sucção parte de um grande vínculo materno, que inicia-se dentro do útero e propaga-se ao longo da vida. Durante os seis primeiros meses de vida do bebê a boca se torna o centro do universo, pois através dela, o mesmo poderá saciar a sua fome, sede e se relacionar intimamente com a mãe. Na grande maioria das vezes a sucção é vista pelas mães como uma função muito simples que serve apenas para saciar a fome do bebê e, mal sabem que o ato de sugar faz parte do desenvolvimento psicossomático da criança que, todavia está em construção. Alguns autores relatam que, quando o ato de sugar não é bem conduzido, o bebê pode sofrer consequências sérias, que podem perpetuar por toda infância, adolescência e vida adulta. Além da capacidade de perceber e responder frente a um estímulo próprio, a sucção proporciona o prazer essencial para o bebê nos estágios iniciais do seu desenvolvimento. Crianças que desenvolvem e aprimoram a sua capacidade de sugar, tendem a ter um emocional mais estável, bem delimitado e de personalidade firme. Como a sucção é uma função que inicia-se na vida intrauterina, o vínculo materno estabelecido é grandioso e, quando interrompido de forma brusca e sem motivo, causará sequelas psicológicas irreversíveis à criança, sendo uma delas o sentimento de rejeição e falta de amor. É de extrema importância que o odontopediatra assim como os demais profissionais de odontologia saiba que o bebê é como uma massa de modelar, totalmente receptivo à receber uma forma proposta por outros indivíduos. Sua vulnerabilidade o torna sensível capaz de sofrer danos ainda no útero.

Aspectos Fisiológicos da Sucção Extrauterina

O sistema nervoso do recém-nascido possui trajetos de um extremo ao outro, pronto para serem ativados mediante a sinais. Caberá às mães ativarem e estimularem este sistema. Durante a vida intrauterina, o feto utiliza a sucção para saciar o seu prazer, porém com o evento do nascimento, a sucção passa a ter um papel não só prazeroso para o bebê, como também nutritivo, afinal a partir dela o mesmo receberá um dos mais benéficos produtos para o seu desenvolvimento, o leite. É muito complexo tentar entender o mecanismo que dispara a sucção na vida extrauterina, mas sabe-se que a primeira mamada é fundamental para o bom desempenho funcional da sucção nutritiva. A interação neural na primeira mamada inicia-se quando o lábio inferior do bebê é tocado pelo mamilo materno, gerando estímulos neurais que desencadeiam três reflexos fisiológicos que proporcionarão a amamentação, sendo eles a movimentação, sucção e deglutição. Inicialmente a mãe toca o rosto do bebê com os dedos ou com o mamilo, fazendo com que o mesmo vire a cabeça para o lado gerador do estímulo. O toque do mamilo no lábio inferior faz com que o bebê abra a boca e coloque o mamilo dentro dela. Quando o mamilo toca o palato do bebê o sistema nervoso conduz uma informação que chega ao cérebro, fazendo com que ele comece a sugar, comprimindo as ampolas lactíferas presentes ao redor do bico do peito, o que resultará na saída do leite. Após três sucções, a boca do bebê passa a ficar cheia de leite e o ato de deglutir ocorre espontaneamente. À medida que a sucção torna-se fácil e agradável, o bebê passa a demonstrar atenção ocular. A voz materna que fala ou canta enquanto ocorre a sucção, é reconhecida pelo bebê, tornando o momento extremamente prazeroso e único, indispensável para o estabelecimento das questões afetivas e trabalho do emocional infantil. Com a sucção o bebê alcançará a sua plenitude respiratória, tornando a respiração, que antes era superficial e irregular, mais intensa e regular. A sucção atinge sua intensidade máxima por volta do 4° mês de vida, e se não funcionou de maneira plena e agradável, sua necessidade tenderá a diminuir, a partir do momento em que a criança começa a vocalizar, morder e agarrar com as mãos. Enquanto o bebê suga o peito materno realizando o movimento de ordenha, o emocional do bebê é conduzido e trabalhado positivamente e, ao mesmo tempo ele é alimentado com o melhor alimento para o seu crescimento e desenvolvimento. Durante a sucção, o bebê olha e ouve o que se passa naquele momento. O ato da sucção é uma atividade biológica primitiva, na qual participam vinte músculos orofaciais. Apenas a sucção no seio materno é capaz de promover uma atividade muscular adequada para um bom desenvolvimento do sistema estomatognático. A sucção no seio materno serve de estímulo para o crescimento craniofacial, trabalhando intensamente o osso mandibular do recémnascido que possui o retrognatismo fisiológico. A sucção nutritiva tem uma relação direta com o bom desenvolvimento de todas as estruturas orais e maxilofaciais do bebê. A amamentação promoverá um intenso trabalho ósseo e muscular, sendo o melhor estímulo para um desenvolvimento harmônico do crânio, evitando danos oclusais futuros.

Sucção digital e chupeta: Necessidade prazerosa e não vital.

Durante a vida intrauterina, o bebê passa por intensas transformações. Uma das mais agradáveis descobertas é a presença do dedo, no qual agora será o centro das atenções e o lazer mais prazeroso que existe para ele. Após o nascimento o bebê passa a enfrentar novas rotinas. A transição do útero materno para o meio extrauterino acaba sensibilizando o bebê, que nem sempre se sacia com a sucção realizada no peito materno para a alimentação, fazendo com que ele busque outros meios para saciar as suas necessidades. Planas já dizia em 1997 que, as crianças que mamam no peito conseguem fadigar a musculatura e, portanto não sentem a necessidade de buscar outros meios para suprir essa necessidade. O exercício feito pela criança em cada mamada consegue levar à exaustão. As crianças que não mamam no peito materno só aprendem a engolir, não trabalhando e fadigando a musculatura, o que leva o bebê a procurar o dedo ou outros objetos para levar à boca. Os artigos relatam que a sucção digital e a chupeta são hábitos muito comuns na infância, podendo trazer consequências irreversíveis quando não removidos no momento exato. É muito mais difícil deixar de sugar o dedo do que a chupeta, uma vez que o dedo é uma parte da criança, a qual ela vê e descobre a cada dia. O dedo é extremamente especial para o bebê, pois sua textura, calor e odor se assemelham muito ao bico materno. Autores relatam que o ato de sugar tranquiliza o bebê, o que leva as mães a buscarem chupetas e objetos para suprirem tal necessidade. Algumas crianças deixam de sugar a chupeta pois se sentem envergonhadas no meio dos colegas e da sociedade de um modo geral, o que desencadeia a sucção digital. Sugar é uma manobra vital que a criança realiza com os lábios, bochechas e língua para mamar, e deve diminuir com o passar do tempo, caso contrario tal função exacerba-se e torna-se nociva ao sistema estomatognático. Segundo autores brasileiros, a chupeta é o meio de sucção não nutritiva mais prevalente na infância e sua interrupção ocorre em idade mais precoce quando comparada a outra sucção. Aconselha-se não ofertar a chupeta nos primeiros meses de vida, uma vez que isso prejudicaria a amamentação natural. Vale lembrar neste artigo que, a sucção não nutritiva, seja digital, por meio da chupeta ou outros objetos pode desencadear alterações oclusais e miofuncionais em longo prazo nas crianças. Quando o hábito da sucção não nutritiva é removido antes ou até os 24 meses de vida, há uma grande chance de ocorrer a autocorreção de desarmonias dentárias e craniofaciais.

 

Adriana Dalboni

CRO – SP 73255