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É interessante observar que, ao preencher os horários extracurriculares de nossos filhos, a primeira coisa que vem à cabeça é o esporte. De fato, ele é muito importante, tanto por garantir a necessária atividade física, quanto para socializar e ensinar regras importantes que as crianças levam consigo para a vida. Por outro lado, o aprendizado de línguas é essencial no mundo em que vivemos. Caso sobre um tempinho, algumas crianças tem necessidade de reforço escolar. Existem prioridades e o tempo anda escasso.

Por isso, a não ser que sempre tenha havido um interesse explícito da criança, nem sempre os pais dão a devida relevância à educação musical. E acredito ser muito importante que, em algum momento da vida (e nem que seja por pouco tempo), as crianças devam fazer aula de música, ou ter contato com algum instrumento.

Quando eu era pequena, minha mãe insistiu muito para que fizéssemos aula de piano, porque achava que era “muito importante aprender um instrumento”. Com a adolescência e outros interesses, deixei de fazer as aulas, mas nunca de apreciar o quanto saber tocar um pouco de piano fez bem para vários outros aspectos da minha vida.

Quase vinte anos depois, resolvi realizar um antigo sonho: ter aulas de canto. Comecei a frequentar o centro de música no clube perto de casa, e três anos depois retomei também o piano. Meus filhos, depois de certa insistência, mas sem imposição, decidiram tentar um instrumento. Desde então, como assídua frequentadora, passei a acompanhar a evolução de meus filhos e de outros alunos do centro de música, especialmente crianças: e minhas observações e conclusões me fazem acreditar que posso, humildemente, oferecer algumas dicas e conselhos sobre como as crianças (e os adultos) podem receber lições para a vida colocando a música em sua rotina.

APRENDER MÚSICA NÃO É SÓ APRENDER MÚSICA – Existe a já comprovada conexão entre o aprendizado musical e o raciocínio matemático. Aqueles que na infância tiveram a oportunidade de assistir ao singelo, mas excelente curta da Disney “Donald e a Terra da Matemágica” sabem disso há muito tempo, e de maneira bem lúdica. Mas há outros grandes benefícios: melhora na coordenação motora; treino de concentração e raciocínio para aprender as notas e sequências melódicas e letras; desenvolvimento da capacidade de improvisação; conseguir trabalhar em equipe, quando se toca com outras pessoas; respeito ao silêncio e momento individual de cada um; aprendizado em lidar com as frustrações, quando se erra; criação de uma rotina de prática, esforço e dedicação, sabendo que a recompensa é a chance de tocar melhor e saber-se capaz. Além disso, crianças mais tímidas e retraídas aprendem a se expor um pouco mais, apresentando-se de modo menos convencional, o que propicia um aumento da autoestima. Meu filho, que já foi bem mais tímido, sente orgulho de tocar guitarra, depois de muito tempo me dizendo que sequer queria tentar um instrumento, e já vê com bons olhos a perspectiva de se apresentar em público.

NÃO IMPONHA SUA PREFERÊNCIA – Se seu filho(a) manifestou o desejo de aprender um determinado instrumento, permita esta escolha, mesmo que você o tenha imaginado tocando outro. Cada um tem seu gosto ou aptidão, e se você forçar o instrumento que “acha” ser o certo para seu filho, você pode criar nele uma rejeição a todo o conceito por não ter respeitado sua vontade e seu interesse pessoal. Da mesma forma, se possível, permita que a criança varie um pouco até encontrar seu “instrumento-metade”. Minha filha fez um ano de violão até se encontrar na bateria. De nada adiantaria eu obrigá-la a permanecer no violão no esquema “começou agora vai até o fim”; ela não teria encontrado o instrumento com o qual se identifica. E eu continuaria sem saber que ela certamente herdou esta coordenação pra tocar bateria da tia, porque eu não batuco nem panela direito.

TOME CUIDADO COM SUAS EXPECTATIVAS – A não ser que seu filho ou sua filha apresente um talento fora do comum e bastante precoce para a música, existe uma idade mínima para que a criança comece um instrumento e que as aulas efetivamente possam render. De nada adianta colocar uma criança muito pequena para tocar violão, por exemplo, cujas cordas, por serem mais duras, exigem coordenação motora mais avançada e podem até machucar as mãos se a criança não está pronta. Ela pode se frustrar por não conseguir tocar e acaba rejeitando toda a ideia de aula de música simplesmente por não estar no tempo certo. Além disso, o significado de “resultado” das aulas pode ser uma coisa para você e outra para seu filho. Para algumas crianças, acertar uma nota ou acorde é o suprassumo da realização. Outros podem só se contentar se conseguem tocar uma música inteira. Alguns querem só se divertir, outros levam mais a sério. Se está sendo proveitoso para ele, não se aborreça com o fato de que seu filho não conseguiu tocar Rachmaninoff. Ele pode estar muito mais feliz com o Tico Tico no Fubá de um dedo só.

Obs.: Se você percebe que seu filho realmente gosta, mas se frustra por não tocar bem, você pode sim mostrar os benefícios de praticar mais. Quando os resultados aparecem após essa dedicação aumentada, eles próprios entendem a relação do maior estudo com melhor desempenho, como aconteceria se estivessem estudando para uma prova.

SEUS FILHOS NÃO QUEREM FAZER AULA DE MÚSICA AGORA? FAÇA VOCÊ! – Nada, absolutamente nada impede um adulto de começar ou voltar a fazer aula de música. Se você sempre teve o sonho, mas não tem tempo; se nunca teve coragem; se acha que não é capaz, se acha que é “desafinada” ou sem coordenação; ou que simplesmente “não leva jeito”… tudo isso são desculpas. Nunca é tarde para começar algo novo, diferente, ousar e arriscar. Cantar e/ou tocar são atos terapêuticos: você deixa seus problemas lá fora e extravasa emoções e recebe de volta a incrível sensação de criar música. Música que preenche os sentidos, traz alegria, e, quem sabe, cria um novo, lindo, melódico e harmonioso vínculo entre pais, mães e filhos.

 

Claudia Hemsi Leventhal é advogada de formação, mas cantora de chuveiro e de palco no coração, mãe de baterista e guitarrista em criação, e que rimou essa descrição pra parecer uma canção