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No final de dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan, surgiram os primeiros relatos de pacientes com uma quadro de pneumonia de causa desconhecida e durante a investigação epidemiológica e laboratorial, foi identificado uma nova variante de coronavírus até então nunca identificada em seres humanos, denominada 2019 n-CoV.

O novo coronavírus se espalhou rapidamente pela província de Hubei e por toda a China chegando logo em seguida a vários outros países situados em diferentes continentes. Em poucos dias, o número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus 2019 n-CoV passou de centenas para milhares, e a cada momento novas informações são divulgadas com aumento logarítmico do número de casos e óbitos relacionados. Até hoje dia 04 de fevereiro já foram confirmados mais de 20.000 casos, com 425 mortes, em território chinês.

O episódio lembra outros dois surtos também causados por coronavírus, o da Síndrome Respiratória Aguda Grave, conhecida como SARS (a sigla em inglês) que matou 916 das 8.098 pessoas infectadas na China entre 2002 e 2003  o da Síndrome Respiratória do Oriente Médio, cuja sigla é MERS (do inglês “Middle East Respiratory Syndrome”) que afetou 2494 com alta letalidade mas aparente menor potencial de disseminação entre humanos.

Os coronavírus (CoV) compõe uma grande família de vírus conhecidos desde meados da década de 1960, que causam infecções respiratórias em seres humanos e em animais e até então, eram descritas apenas 6 espécies capazes de infectar o homem. Geralmente, infecções por coronavírus podem variar desde casos assintomáticos e doenças respiratórias leves semelhantes a um resfriado comum até quadros mais graves com pneumonia e insuficiência respiratória aguda. Os sintomas mais comuns são febre associada a pelo menos um sintoma respiratório como tosse, secreção em vias aéreas e dificuldade para respirar. Pacientes com baixa imunidade (quimioterapia, transplantados) e com extremos de idade como crianças pequena e idosos podem apresentar manifestações mais graves. Como os demais coronavírus, o 2019 n-Cov provoca infecção respiratória e em alguns casos pode evoluir com doença pulmonar grave e insuficiência renal e até o momento parece afetar mais pacientes do sexo masculino, com mediana de idade de 49 a 53 anos, e presença de comorbidades.  No caso do 2019 n-CoV, até o momento não houve registro de nenhum caso de infecção sintomática em crianças ou adolescentes (< 15 anos).

Pessoas que se enquadrem na definição de caso suspeito pelas autoridades de saúde devem procurar imediatamente atendimento médico. A definição atual de caso suspeito pelo ministério da saúde (MS-BR) deve atender os seguintes critérios:

  1. Febre E pelo menos um sinal ou sintoma respiratório (tosse, dificuldade para respirar) E histórico de viagem para área com transmissão local*, de acordo com a OMS, nos últimos 14 dias anteriores ao aparecimento dos sinais ou sintomas; 

OU

  1. Febre E pelo menos um sinal ou sintoma respiratório (tosse, dificuldade para respirar) E histórico de contato próximo (< 2 m dentro da mesma sala/ambiente por período prolongado) de caso confirmado ou suspeito de coronavírus (2019 n-CoV), nos últimos 14 dias anteriores ao aparecimento dos sinais ou sintomas.

De uma forma geral, o contágio por coronavírus ocorre por meio do contato próximo de pessoa a pessoa pelo ar através de gotículas (< 1 m) expelidas ao falar, tossir ou espirrar ou contato pessoal com secreções contaminadas, da mesma maneira como influenza e outros patógenos respiratórios se espalham. No momento não está claro o quão fácil ou sustentável esse vírus está se disseminando entra as pessoas. A transmissibilidade dos pacientes infectados com SARS-CoV é em média 7 dias após o início dos sintomas, no entanto, pelos dados preliminares cientistas na China indicam que os pacientes podem começar a transmitir o novo coronavírus 2019 antes de aparecerem os primeiros sintomas, como ocorre no caso do sarampo e da gripe. O período médio de incubação, ou seja, o tempo entre o contato com o vírus até o início dos sintomas da doença é de 5 dias, podendo chegar até 16 dias.

Especialistas da organização Mundial da Saúde (OMS) acreditam que cerca de 20% dos casos de infecção pelo n-CoV podem evoluir com quadros respiratórios mais graves com  letalidade de 2% até o presente momento, maior que a apresentada pela gripe suína (0,02-0,4%), mas muito menor quando comparada ao a SARS-CoV (10%) e ao MERS-CoV (35%).

Não há medicamento específico contra o coronavírus e o tratamento é feito com medicamentos sintomáticos como antitérmicos, analgésicos, oxigênio suplementar e suporte ventilatório e hemodinâmico em unidade de terapia intensiva quando necessário. Também não existe uma vacina disponível contra o 2019 n-CoV, portanto a vacina para influenza/H1N1 não protege contra a 2019 n-CoV, mas deve ser feita normalmente para a prevenção da gripe que apesar de apresentar uma letalidade menor de cerca de 0,1% (H1N1 0,02- 0,4%) representa um número muito maior de óbitos pela sua alta prevalência.

Para prevenir esta infecção devemos seguir as mesmas recomendações universais para a prevenção de infecções respiratórias:

  • Higienizar as mãos com álcool gel 70% se estas não estiverem visivelmente sujas ou lavar frequentemente as mãos com água e sabão, especialmente após o contato direto com pessoas ou o meio ambiente e antes de se alimentar;
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca;
  • Usar lenço descartável para higiene nasal e higienizar as mãos após o seu uso;
  • Cubrir o nariz e a boca com lenço descartável ou com o braço ao tossir ou espirrar;
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes;
  • Não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas;
  • Ficar em casa quando estiver doente;
  • Manter os ambientes bem ventilados;
  • Se houver necessidade de frequentar locais públicos, como sala de espera de pronto socorro e consultórios enquanto estiver apresentando sintomas respiratórios utilizar máscara cirúrgica;

Não há motivo para pânico neste momento. A epidemia está concentrada na China, e os casos identificados fora daquele país foram importados ou apresentam vínculo epidemiológico com casos suspeitos ou confirmados da doença. Até o momento não houve nenhum caso confirmado na América Latina e não há transmissão sustentada do vírus fora da China. O rápido crescimento dos números, mais acelerado que em outros surtos, pode ser devido à maior capacidade de identificação das pessoas infectadas em virtude dos avanços na tecnologia diagnóstica. Todas as medidas adequadas para que a epidemia seja controlada estão sendo adotadas tanto pela China quanto demais países, incluindo o Brasil. O Ministério da Saúde e entidades médicas têm se reunido regularmente com atualização da situação e orientações em tempo real e criação de protocolos próprios para nossa realidade baseados nas melhores evidências disponíveis até o momento. Ainda carecemos de informações sobre a origem do novo vírus, sua transmissibilidade, capacidade de disseminação e patogenicidade, porém esforços imensos têm sido feitos por médicos, cientistas e pela população e novas evidências surgem a cada dia somando-se ao nosso conhecimento já adquirido sobre coronavírus e surtos já superados pela humanidade.

Não há motivo para pânico!!! Não é necessário cancelar viagens internacionais neste momento, nem a compra de produtos chineses, mas precisamos sim estar alertas e seguir as recomendações das autoridades sanitárias para evitar uma eventual disseminação do novo coronavírus em nosso meio, caso eventualmente ele adentre nossas fronteiras.

 

Camila Bertoldo Pinheiro

Médica Infectologista- CRM/SP 147.127