Comunicação Não Violenta

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Quantas vezes, vencidas pelo cansaço nos irritamos, gritamos, desistimos e por que não armamos uma guerra com as nossas crianças? Quantas vezes nos distanciamos dos nossos filhos cada vez que damos uma resposta agressiva ou desinteressada? Os gatilhos podem ser vários, trânsito, agendas nossas e dos filhos cada vez mais cheias de compromissos, volume de trabalho ou mesmo aquela cobrança interior por um amparo emocional, muito comum para nós, mulheres modernas, pois cada vez nos ocorrem menos pessoas com quem compartilhar nossas angústias e percepções. Mas então, como agir nessas situações?

Uma das abordagens utilizadas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais é a Comunicação Não Violenta (CNV), de Marshall B. Rosenberg, e é essa abordagem, em especial, que nos ajuda muito nos dilemas da maternidade e na maneira como educamos nossos filhos. No último evento que participamos sobre CNV, nos chamou a atenção a quantidade de mães presentes, interessadas em melhorar a comunicação com os seus filhos. Perguntas como “Como identificar o que eu estou fazendo que torna a minha comunicação violenta e como reverter isso?” ou “O que eu ainda não fiz para melhorar a comunicação com os meus filhos?”, serviram como sustentação do encontro para a grande maioria dos participantes. Nos propomos, então, a abordar a CNV numa situação do dia a dia, especificamente com os filhos.

Imaginem o seguinte fato: depois de um dia intenso de trabalho, você está cansada e, ao chegar em casa, se depara com seu filho de três anos brincando com tinta, em cima do sofá da sala. Ele tem tinta espalhada no corpo e na roupa. Qual seria sua primeira reação? O que falaria primeiro? Como falaria? Diante dessa situação, é difícil não julgar a criança ou quem estava responsável sobre os seus cuidados. A CNV é uma das abordagens que pode ajudar os pais e educadores na prática de como reagir de maneira mais adequada ao desenvolvimento positivo da criança. Ela se baseia em quatro passos simples, mas profundos: • Observação sem julgamento; • Sentimento; • Necessidade; • Pedido.

Voltando a situação da criança, que estava em cima do sofá da sala, com tinta no corpo e na roupa. O exercício é observar o que está acontecendo de fato, sem julgamentos e sem juízo de valores. Apenas uma constatação do que estamos observando que pode (ou não) ter nos agradado. E neste caso, como se comunicar com seu filho? Interpretação: – Você só faz besteira, toda suja e sujando o sofá da sala! Ninguém cuida dessa criança?! Observação sem julgamento: – Você está com tinta no corpo e na roupa, em cima do sofá da sala. Talvez a primeira reação seria brigar com a criança, dizendo que ela está suja de tinta e que ela só faz besteira. E ainda chamar atenção do responsável, que estava com ela, dizendo que ele não cuidou direito da criança, pois ela está pintada de tinta em cima do sofá da sala. Mas neste caso, vamos concentrar o aprendizado na comunicação com a criança.

Seguindo o caminho da observação sem julgamento, lembre-se que a criança é uma esponja, ela aprende por meio da observação. Boa parte do aprendizado infantil se faz por experimentação e por imitação, sendo os adultos com quem ela se relaciona e tem vínculos, os maiores exemplos. E assim, ela construirá seu próprio caminho para lidar com os desafos e com as situações de conflito com clareza dos fatos e de como solucioná-los. Pensando nas duas formas de se expressar, qual delas desperta um relacionamento baseado no respeito? Qual forma desperta na criança uma melhor compreensão da situação?

O segundo passo é, a partir desse fato, perceber quais sentimentos que emergem em você e acolher esses sentimentos. Observar que os sentimentos negativos trazem à tona alguma necessidade que não foi atendida. A prática de identificação dos sentimentos é o que faz ter contato consigo mesmo, olhar para dentro, para o EU, em vez de culpar o outro. E para isso, é necessário se perguntar: “Como eu me sinto?” Nomear sentimentos não é uma tarefa fácil, pois nos leva a acessar lugares que a maioria de nós evitamos, assumir responsabilidade pelos nossos sentimentos e demonstrar 2018 junho Ed. 61 33 vulnerabilidade. Mas é a partir desse sentimento, assumindo a responsabilidade pelo que sinto, que é possível criar uma narrativa mais empática. Como essa mãe pode expressar os seus sentimentos? Em vez de dizer: – Você sempre faz besteira! A mamãe está muito brava com você! Que tal dizer: – A mamãe chegou cansada do trabalho e fiquei brava quando vi você pintada de tinta em cima do sofá. Assumir o sentimento e demonstrar vulnerabilidade é evoluir para mais um passo da CNV, pois é a partir da identificação desse sentimento, que é possível reconhecer que necessidades não estão sendo atendidas. “Quando expressamos nossas necessidades, temos mais chance de vê-las satisfeitas.” – Marshall Rosenberg

Os sentimentos despertam a partir das necessidades e valores que possuímos. Todo ser humano tem sentimentos, portanto, igualmente possuem necessidades. Tomar consciência sobre os sentimentos e as necessidades é a possibilidade de começar a perceber também qual é o sentimento e a necessidade do outro. Sabendo que os outros, por sua vez, podem (ou não) atender nossas necessidades e valores, desencadeando os nossos sentimentos e vice-versa. E nessa relação mais humana, há a oportunidade de começar a criar relacionamentos de compaixão e cooperação. Pensando que somos os responsáveis por educar nossos filhos, lhes ensinando sobre sentimentos e valores. Qual é a maneira mais eficaz de ensinar isso através do diálogo? Posso dizer: – Estou muito brava porque você esta toda suja de tinta em cima do sofá! Ou posso falar da minha necessidade: A mamãe ficou muito brava quando viu você pintada de tinta em cima do sofá. Estava cansada e pretendia deitar por quinze minutos no sofá para relaxar e me sentir mais confortável. Essa mudança de foco pode parecer ordinária, mas não é. Quando os sentimentos são assumidos como uma responsabilidade nossa, passamos a refletir de maneira diferente sobre os mesmos e, principalmente, sobre as nossas necessidades. Desse modo, deixamos de culpar os outros, especialmente os nossos filhos, pelo que estamos sentindo. Este não é um processo fácil, mas para torná-lo reconfortante, faz-se necessário passar por todos os passos. Afinal, é a mudança de foco, o olhar para dentro, que possibilita ter consciência do pedido. “É comum não termos consciência do que estamos pedindo.” – Marshall Rosenberg

O maior desafio do pedido, depois de torná-lo consciente, é transformá-lo em concreto, claro e positivo, para que o outro entenda especificamente o que está sendo pedido. Esta estrutura facilita a compreensão e consequentemente as relações, principalmente para as crianças, que estão construindo aprendizados do que é certo e errado. Por isso, qual seria a maneira mais adequada de fazer esse pedido para uma criança de três anos? Uma maneira seria: – Você só faz besteira, está toda suja de tinta e sujando o sofá da sala! A mamãe esta muito brava com você! Saia de cima do sofá e vá imediatamente para o banho! Outra maneira pode ser: – A mamãe ficou muito brava quando viu você pintada de tinta em cima do sofá. Estava cansada e pretendia deitar por 15 minutos no sofá para relaxar e me sentir mais confortável. Quando quiser brincar de tinta, brinque sempre na varanda e não suba em cima do sofá com o corpo sujo de tinta. Desta maneira, a criança poderá continuar com a experimentação, que é importante nesta idade, e aprenderá sobre os limites e percepções de mundo.

Cristiane Barbosa Vicchiato e Karina Colpaert | Coaches. Mães em busca de leveza em todos os seus papéis na sociedade.

E-mails: cristiane@8coaching.com.br karina@8coaching.com.br

 

 

Artigo escrito para a revista Coaching Brasil Ed 61 – junho 2018

Referências bibliográfcas: Gutman, L. Mulheres visíveis, mães invisíveis Rosenberg, M. B. Comunicação Não-Violenta – Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profssionais Faber, A., Mazlish, E. Como falar para seu flho ouvir e como ouvir para seu flho falar Brown, B. A Coragem de ser Imperfeito

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