Masturbação Infantil

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A masturbação é um ato natural na vida de um ser humano que, no entanto, é habitualmente mais comum a partir da adolescência ou pré-adolescência de um jovem. Apesar disso, sabemos que algumas crianças pequenas recorrem também à masturbação como forma de autodescoberta e autoconhecimento do seu corpo, sem que isso envolva qualquer tipo de conotação sexual. Perante este comportamento inesperado, alguns pais ficam apreensivos e não sabem como agir, nem de que forma devem encarar esta fase.

Mas afinal, por que razão ocorre a masturbação na infância?
Quando o bebê nasce está ávido por novas descobertas e, entre milhares de coisas no seu desenvolvimento, também inicia um grande e longo caminho de exploração pelo próprio corpo. Com a mesma vontade que suga o peito da mãe e/ou a mamadeira na procura de alimento, ele coloca as mãos, dedos e pulsos na boca – trata-se da fase oral da sexualidade infantil, como lhe chamou Sigmund Freud, e é um período que vai dos primeiros meses até cerca dos dois anos. No entanto, a exploração do corpo não para. Com o passar do tempo esta atividade exploratória chega aos órgãos sexuais e entra em cena a masturbação que, e infelizmente, ainda hoje tem uma grande carga de preconceitos e muitos tabus. As crianças descobrem os seus genitais da mesma forma que vão descobrindo as outras partes do corpo. A masturbação é natural, normal e saudável. Ela faz parte da vivência da própria sexualidade e está ligada à experimentação e ao reconhecimento da criança pelo próprio corpo, sendo que, ainda por cima, dá prazer e satisfação.

A masturbação na infância não pode ser comparada à masturbação na adolescência e/ou na idade adulta, e não tem nenhuma conotação sexual. A sexualidade e a masturbação infantil não estão relacionadas com o erotismo e o ato sexual em si. A masturbação infantil não é acompanhada de fantasias sexuais. Ela está ligada à experimentação, descoberta e reconhecimento da criança pelo próprio corpo e à busca pela satisfação e prazer, muitas vezes com uma necessidade natural de descarregar tensões e acalmar a criança, servindo o mesmo propósito que, por exemplo, chupar o dedo ou se balançar. A prova de que as crianças não têm qualquer sentimento impróprio, é que o fazem à frente de qualquer pessoa.

Como já referi, a masturbação infantil é algo normal e natural e como tal é assim que deve ser encarada. É necessário e urgente que os pais/cuidadores tenham “mente aberta” no que respeita à sexualidade da criança. O que acontece, regra geral, é que a erotização que a maior parte dos adultos faz no que diz respeito à masturbação infantil é que tende a gerar desconforto, apreensão e repreensão. É muitas vezes a atitude negativa por parte dos crescidos, que fazem da masturbação infantil um “bicho de sete cabeças”, que leva ao aumento das tensões e da curiosidade, reforçando assim a masturbação. As crianças, conforme vão crescendo, começam a perceber as diferenças entre os meninos e as meninas e começam as perguntas sobre essas diferenças, essas perguntas devem ser respondidas de forma natural e tranquila, sem grandes “floreados” e com explicações simples. Devemos dizer sempre a verdade e nunca inventar outras coisas (o mesmo serve para as perguntas “de onde vêm os bebês”). Uma coisa importante é ensinar o nome correto das partes genitais, vagina ou vulva e pênis, porque é algo importante para a prevenção e proteção da criança a possíveis situações de violência sexual. As brincadeiras de médicos também são muito comuns, em que as crianças da mesma idade se examinam. São apenas comportamentos de descoberta e brincadeiras sem qualquer conotação sexual. Encare-as com naturalidade. Falem com seus filhos sobre o corpo deles e as suas partes íntimas com naturalidade. Aproveitem as perguntas deles, a hora do banho e higiene para explicar que o nosso corpo é muito especial e é só nosso, que é importante proteger as nossas partes íntimas (como se faz na praia ou na piscina). Sugiro aos pais/cuidadores um diálogo saudável e preventivo.

Como em quase todas as questões do desenvolvimento infantil a intensidade, persistência e frequência da masturbação, podem ser um indicador de existir um problema. Podem ocorrer situações em que a criança parece estar “viciada” na masturbação. É preciso entender que estas podem ter carácter físico e/ou emocional. Por exemplo, pode ocorrer uma infecção, alergia, dermatite, hipersensibilidade cutânea, e nestes casos a criança manipula excessivamente os genitais como forma de aliviar o desconforto.    Situações em que a criança se masturba excessivamente e parece alienada de tudo podem estar, por exemplo, relacionadas com grandes carências de afeto por parte dos cuidadores e, neste sentido, originar tensões muito elevadas. Aqui a criança masturba-se como forma de aliviar essa carga de ansiedade. Outro tipo de situação que temos que atentar, é quando a masturbação assume um caráter sexual, ou seja, a criança simula posições sexuais, solicita contato físico excessivo, há penetração de objetos, repetição e insistência na masturbação após intervenção de uma criança mais velha ou adulto. Em qualquer um destes casos deve procurar ajuda especializada.

Dra. Cecilia Gama Tartari  | Pediatra

E-mail: ceciliagama@tartari.com.br

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