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Durante meus anos na faculdade de psicologia, enquanto a maternidade para mim era uma instância teórica e nem um pouco prática, tínhamos uma brincadeira interna no nosso grupo de amigos que sempre se entreolhava nas aulas e dizia “É tudo culpa da mãe, sempre.” Isso porque nas primeiras teorias psicológicas, advindas, é claro, de outros contextos culturais, a culpa de todos os complexos, neuroses e etc, eram sempre da mãe. Ou protetora de mais ou de menos, ou exigente demais ou de menos e por aí vai… E eu pensava “Meu Deus, como deve ser difícil ser mãe, mesmo tentando muito acertar,  sempre erramos e dali há alguns anos, lá estará meu filho em frente a sua analista e ela lhe dirá: Isso é culpa da sua mãe…”

Até que um dia conheci um conceito que acho um dos mais libertadores dentro da psicologia. Ele foi criado por D. Whinnicott, um pediatra inglês da década de 50, que escreveu sua teoria baseado em sua atenta (e carinhosa) observação clínica da relação das mães com seus bebês.

Esse conceito chama-se “A Mãe Suficientemente Boa”.  Para esse autor, a mãe (ou quem cria) tem papel estruturante e fundamental na vida do bebê, ela é seu ambiente, seu tudo; e deve fornecer todo tipo de alimento (físico e psíquico) e condições para que ele se sinta protegido, satisfeito, amado e confiante para arriscar e se desenvolver no mundo. Somente através desse impulso banhado de amor e instinto de proteção é que o bebê pode se desenvolver.

Bacana, lindo… Mas aonde entra a libertação, por favor?

A libertação está no suficientemente. Suficiente é propiciar um ambiente seguro e amoroso, mas não perfeito  e sem falhas. Se a mãe for boa demais ela não permitirá que seu filho pense. Uma criança suprida em todas suas necessidades, não precisa pensar, não precisa criar teorias, não precisa se arriscar, basta ficar parado, estagnado e esperar que antes mesmo de querer qualquer coisa alguém já virá lhe suprir.

Para este autor, a MENTE aparece como uma ferramenta para lidar com as falhas da mãe. E é função da mãe, permitir que isso ocorra. Exemplos:

– estou com fome, ninguém apareceu, o que eu faço? Vou fazer um sonzinho… não adiantou. Vou chorar bem alto… ufa! Lá vem a mamãe.

– quero pegar aquele brinquedinho, mamãe não está aqui… hum, vou tentar chegar até ele… uau! Consegui me arrastar!

E assim, por toda a vida de um bebê, de uma criança e nossa, como adultos, é nos desafios que crescemos, nos desenvolvemos, arriscamos e nos surpreendemos com as conquistas.

Acho libertador pensar que acertamos ao falhar, que somos ótimas mães sendo suficientemente boas, porque a perfeição sufoca e tira da criança a capacidade de se desenvolver.  Vejo tantas angustias nas mães, tantas disputas veladas de quem faz certo e quem faz errado, e esquecemos que o mais importante é dar condições para que a criança possa reconhecer suas individualidades, capacidades e confiar em si mesma. Estimular as experimentações, os desafios, acreditar no potencial da criança para enfrentar de adversidades- isso é ser uma mãe suficientemente boa.

Errar tentando acertar, acertar errando… Realmente eu estava certa, lá há mais de 15 anos… Essa tarefa não é nada fácil!!

O que eu não conhecia naquele tempo, era o imenso e poderoso amor que uma mãe sente e que lhe dá forças para se desafiar, arriscar, se superar, se transformar! Mesmo sabendo que lá na frente ainda ouviremos que foi tudo culpa nossa…

Karla Rapaport Goldenbergn| Psicóloga e Psicoterapeuta formada pela Puc com especialização em Psicologia Clínica pelo HSPM e Psiccologa Analítica e Abordagem Corporal pelo Sedes Sapienteae.