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Este texto é escrito, acima de tudo, por um(@) amig@. El@ pode ser solteir@, enrolad@, namorar, ser casad@ há muito ou pouco tempo, ter nenhum, um, muitos filhos ou nunca querer ter filhos. Não é isso que importa. O que importa é que ele(a) é um(a) amig@.


E este texto é, também, acima de tudo, um texto escrito para outra amiga. Qualquer amiga, mas mulher. Este texto é, sim, necessariamente, uma conversa com mulheres, na nossa sociedade, nos dias de hoje.


Nós, mulheres, temos dois destinos principais que exercitamos desde muito pequenas: achar um príncipe encantado e cuidar de bonecas. Casar e ter filhos. Não há como negar que ainda hoje, com toda a revolução sexual, o feminismo, a entrada da mulher no mundo do trabalho, etc. e tal, nossa subjetividade seja ainda constituída por estes dois destinos fundamentais: achar um príncipe encantado e cuidar de bonecas. Somos tão obcecadas por este destino traçado desde tempos imemoriais que não nos damos conta de tudo que pode nos acontecer quando o alcançamos.


Cuidado com aquilo que deseja. Conhece esta frase? Destino tão perseguido que, quando encontrado, o que produz? Uma das primeiras coisas que produz é definir em grande medida quem somos: somos a princesa encantada, somos a mamãe. Somos a mulher do fulano, somos a mãe do fulano. Ganhar identidades como estas, para nós, perseguidoras destes destinos desde sempre, pode ser muito enriquecedor. Pode ser, também, e o é comumente, muito restringente.


Não, este texto não é uma ode ao fim do casamento e da maternidade. Se você já começou a pensar isso continue mais do que ninguém a ler. E tente se acalmar e realmente ler. Este texto é um texto de alguém que não acha bacana que nós, mulheres, nos aprisionemos no reino das princesas encantadas e das mamães, das mulheres dos fulanos e das mães dos fulanos. Mas mais do que isso, este texto é uma ode a amizade. Então respira e lê até o final.


Há diversos mecanismos de sustentação dessa restrição de nós mesmas no mundo da princesa encantada e da mamãe: mulher do fulano, mãe do fulano. Um deles, muitíssimo efetivo, é o comportamento de parar de falar efetivamente sobre aquilo que importa, sobre o que angustia, sobre o que nos faz questionar, duvidar, sobre o que incomoda no seu casamento e na maternidade. A imensa maioria das mulheres que casa não fala mais sobre as questões que envolvem estar casada. Idem às questões ligadas à maternidade – salvo quando isto se transforma de fato em algo que pode ser identificado como “um transtorno”.


Briga de marido e mulher não se mete a colher. Esta ideia vai muito mais além: vida marital não se mete a colher, não se fala sobre, não se ”expõe”. E porque será? Porque será que paramos de falar verdadeiramente sobre o que é estar casada – ou, no mínimo, temos muita dificuldade de fazer isso, falamos tão pouco e em momentos apenas muito tensos?


Outro mecanismo que sustenta a nossa restrição do mundo da princesa encantada e da mamãe é o afastamento dos outros mundos e das outras personagens que não compõe o destino tão esperado: a solteira convicta, a namoradeira, a sem filhos – fundamentalmente. O alçamento à condição de quem faz – e quase só faz – programa de casal ou programas com as crianças é o coroamento deste mecanismo. Está fechado o cerco.


Mas porque precisamos fechar o cerco? E, entrando no assunto que mais interessa aqui: o que a amizade tem a ver com isso?
Você se lembra da Princesa Encantada ter amigas? Ela tem animais de estimação, irmãs invejosas, anões, madrasta e, no máximo, Fada Madrinha, mas… amigas? E a mamãe? Quem a acompanha? A titia, claro!! E a quem está referida a titia? À criança, claro. À mamãe. Não é a você, fulana, nome próprio, que tem um filho, que é mãe: é a mamãe.
Mas, e daí? Sem amigas (não fadas madrinhas, não namoradas do fulano, não mães do ciclano, não titias), o que acontece? Ou melhor: para que servem as amigas neste reino de princesas encantadas, mamães e titias?
Eu penso que amig@s não podem estar remetidos a universos temáticos específicos. E, sim, eu não estou falando de colegas, de companheiros de vida, de pessoas com quem você troca coisas e faz atividades. Eu estou mesmo falando de algo muito específico e raro: estou falando de amig@s. 


Os companheiros de vida são fundamentais! Eles devem ser vários e precisam mesmo ser variados, para darem conta da variedade da vida. Os amigos são vitais. E comumente são poucos.
Uma mulher do amigo do marido pode tornar-se amiga, a mãe do fulano pode tornar-se amiga. Claro! Quanto mais estamos com o cerco fechado, mas fácil será que sejam estas as pessoas que se tornem amigas. O fundamental, do meu ponto de vista, é ter amigas, notem; não importa de onde venham! 

Charming little girl with a heart and a coronated dog


Isto porque amig@ é aquele deslocado: não tem que pertencer ao seu ciclo de interesses, de convivência cotidiana, ao círculo do seu casamento ou do seu filho. Amig@, como diz o Deleuze, filósofo francês: não é uma questão de se ter ideias em comum. Amig@ é deslocado, e é por isso que é a única pessoa capaz de te deslocar. Também porque é deslocado é a única pessoa capaz de te suportar verdadeiramente, onde for. 


Neste sentido, não suportar amig@s, é estar por um fio. Quando estamos por um fio nos agarramos demais. Viver presa no reino das princesas e das mamães é estar a todo tempo por um fio. Quem já viveu lá, no cerco, mesmo quem já chegou perto dele, sabe. Quase todas nós sabemos…


Companheiros de vida falam de temas; com eles temos conversas que sabemos para onde vão. 
Amig@s têm conversas abismais. Conversas nas quais não se sabe onde vai parar. Ter conversas abismais é arriscado. Por isso que no reino das princesas e das mamães não existem amig@s. É muito arriscado. 
Mais: todo o reino fica arriscado pelas conversas com amig@s.


Na nossa sociedade, quanto mais adulto se é, menos amig@s se tem. O mesmo acontece, portanto, com as conversas abismais. São conversas que não levam a lugar nenhum, tonterias, ou pior: são papo de quem está amargurado, que não chegou lá. O reino não suporta a dúvida, não suporta a alteridade. O reino quer acabar com suas fronteiras. O reino tapa seus abismos.
Sim, eu estou defendendo aqui que sair do reino é vital. E para isso é que o mundo real fez os amig@s.

Juliana Pacheco – Mestre em Psicologia