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Ao ser convidado pela Vanessa a escrever um texto nesse espaço, o primeiro assunto que me ocorreu foi falar sobre as crianças e a atividade esportiva. Esse tema quando abordado no consultório sempre me causou certo desconforto e uma sensação de desafio. Apesar de atuar há vários anos assistindo o grupo de traumatologia do esporte no hospital onde trabalho, ter escrito capítulos sobre o assunto e abordá-lo em vários congressos, posso afirmar que estamos longe de ter uma resposta adequada aos questionamentos dos pais, quanto à modalidade de esporte ideal para seus filhos e principalmente quanto à quantidade e intensidade de exercícios a ser realizada.

A dificuldade em encontrar a resposta ideal se deve ao fato de existirem inúmeras particularidades e ambiguidades nessa decisão. Isso inclui a análise das características físicas e psicológicas da criança, de seu círculo social e fundamentalmente dos anseios dos pais e treinadores. Abaixo exemplificarei duas situações totalmente antagônicas que me deparo comumente no consultório. ThinkstockPhotos-78617746

A primeira e a meu ver, a mais simples em responder, seria a criança que não gosta de praticar nenhum esporte, frequentemente realiza pouca atividade física. Geralmente são crianças menos agitadas, muitas vezes no limite do sobrepeso, que preenchem seu tempo de lazer com jogos de vídeo games, televisão, ou na melhor opção com atividades de leitura. A orientação nesses casos seria estimular essas crianças a realizar atividade física. Veja que não falei em esporte! Para isso temos inúmeras dicas: estimular as caminhadas em trajetos menores os quais rotineiramente usaríamos o carro, estimular passeios de bicicleta com a família (atualmente, com as ciclovias, temos várias opções), estimular o uso de escadas ao invés de elevadores,  incentivar brincadeiras ao ar livre, valendo até a troca do vídeo game por modelos nos quais a criança tenha que se movimentar. Em relação à introdução do esporte para essas crianças, devemos encontrar alguma modalidade que consiga atraí-las. Sempre lembro os pais que o aprendizado em nadar é uma obrigação, pois implicará em segurança para a vida de seus filhos. Aqui cabe ressaltar um dado estatístico, cerca de 70% dos filhos de pais inativos serão adultos inativos, logo devemos refletir o que esta ocorrendo em nosso lar.ThinkstockPhotos-525833671

A segunda situação é a criança que pratica atividades em excesso, muitas vezes apresentam uma agenda de tarefas muito maior que a nossa. Geralmente, chegam ao consultório com lesões por “overuse”, necessitando de afastamento temporário ou definitivo da pratica esportiva. Nesta situação, comumente enfrentamos resistência da criança, dos pais e treinadores, sendo difícil definir com precisão o tempo de afastamento, assim como a intensidade de treinamento após seu retorno. Como médicos, nos sentimos responsáveis pela saúde destas crianças, porém devemos compreender a importância do esporte na vida de cada uma delas. Uma dica para os pais que enfrentam essa situação: não devemos transferir nossas expectativas para os nossos filhos, temos que lembrar que o atleta atingirá sua excelência no esporte em uma idade madura. Sobrecarregar essas crianças antes do momento adequado poderá afastá-las dos esportes definitivamente.

Miguel Akkari

Professor de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa- sp

contato: miguel.akkari@gmail.com