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Já fazia 3 meses que ele tinha viajado a trabalho. O projeto estava previsto para durar seis. Para ela, parecia que ele tinha partido há anos. Como era possível sentir tanta saudade em tão pouco tempo? Era.

Eles eram casados há pouco, o namoro durara apenas seis meses e logo foram morar juntos. Depois da etapa inicial, em que ambos se testam, aprendem sobre seus limites, entendem seus momentos de privacidade, enfim, de fato se conhecem, decidiram, afinal, se casar.

Fora uma festa simples, para poucas pessoas, todos muito amigos e, em menor número ainda, familiares. Como já moravam juntos, todos os presentes se resumiram a contribuições para uma viagem bacana. Passaram um mês rodando cidadezinhas no interior de Portugal e Espanha, mas com paradas em cidades turísticas como Lisboa, Barcelona, Madri e Paris. Uma viagem de sonhos.

Com dois meses de casados ele recebeu o convite para participar de um projeto fora do país pela empresa em que trabalhava. Era engenheiro de produção e a ideia era trazer ao Brasil um novo método de fabricar aparelhos para surdez que barateava a produção e ganhava em escala. Uma empresa sueca havia conseguido, além do ganho em produtividade, também criar modelos bem menores em tamanho que serviam em bebês, mudando vidas logo em seus primeiros dias. Era uma causa nobre e uma oportunidade incrível para sua carreira.

Conversaram e, como em todas as vezes anteriores e posteriores a esta, ela o apoiou incondicionalmente. Admirava seu marido de uma maneira que a realizava. Gostava de observa-lo de longe em encontros sociais, respirar fundo e pensar – é meu. Essa admiração fazia com que torcesse por ele e por sua carreira independentemente de quantas noites precisasse dormir sozinha, enquanto ele corria atrás de seus objetivos. Dentro desses objetivos, obviamente, estava o de ganhar mais dinheiro e solidez profissional para que pudessem planejar uma família com filhos e conforto.

No dia em que fez três meses que ele viajara, era uma sexta-feira, ela saiu do trabalho com algumas flores no colo, umas sacolinhas de presente e um pouco de batom nas bochechas. Era seu aniversário e o pessoal do escritório havia preparado uma festinha surpresa para ela, com balões e um bolo. Gostou dos balões e fingiu comer um pedaço de bolo. Nunca fora fã de doces, mas até comeria se conseguisse entender quem, em sã consciência, enche de pêssegos e chantilly uma massa de chocolate. Não faz sentido algum. Qual o problema com o cachorro-quente? Tão melhor. Enfim. Era educado disfarçar e fingir que comera um pedacinho. Foi o que ela fez.

Depois da pequena bagunça, no final da tarde todos voltaram para suas mesas e ela também retornou ao trabalho. Havia falado com ele na noite anterior pelo Skype. Ele havia lamentado a ausência do dia seguinte e combinaram repetir o encontro virtual nessa noite. Mas, por conta do fuso, isso seria em um horário bem desagradável e, de fato, o aniversário já teria passado. Que pena, ela pensou. Mas faz parte. Não se pode ter tudo.

Muita gente lembrou e telefonou, centenas de mensagens pelo facebook, alguns whatsapps, em algumas dessas demonstrações de carinho e desejos de felicidade vinha a habitual pergunta: “E aí? Vai fazer alguma hoje para comemorar? É sexta, bom dia para fazer aniversário”. Ela não havia programado nada. Respondia que teria que trabalhar até mais tarde, o que não era verdade, e que, se resolvesse ir para algum lugar, avisaria depois. A família toda morava em outras cidades, então para esses nem precisava dar desculpas. Não estava com vontade. O que era bem estranho, já que das pessoas que ela conhecia, sem dúvida nenhuma, ela era a que mais gostava de aniversariar. Em anos anteriores, sempre fazia alguma coisa de que gostasse muito, sair pra dançar, jantar em um lugar legal, mas nunca deixava passar em branco e, de preferencia, sempre cercada dos poucos e melhores amigos. E “ai” de quem esquecesse de seu aniversário, ela perguntava na lata: “Não vai me dar os parabéns?”. Não esse ano. Não estava a fim.
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Pegou seu carro no estacionamento e começou rumando o caminho de casa. Chegou uma mensagem no whatsapp. Estacionou. Era dele. Era um áudio. Neste áudio ele dizia: “Se eu estivesse aí, pegaria você agora mesmo na saída de seu trabalho. Iríamos ao nosso bistrô favorito. Aquele com as heras na parede de fora da casa, aquele com um ar francês tão peculiar e que sempre nos faz sentir em Paris. Sentaríamos a uma das mesas na varanda, afinal é novembro e tenho certeza de que, no Brasil, está um tempo agradável. Pediríamos um bom vinho tinto, talvez um steak tartare de entrada e, certeza, seu prato favorito do local. Aquele que nunca lembro o nome, mas que é um belo medalhão com foie gras, molho de vinho do porto e purê de mandioquinha. Depois, sem sobremesa, já que você não faz questão de doces, iríamos para casa. Tomaríamos um belo banho juntos e, ah, você sabe o que faríamos. Como não estou aí com você, sugiro que pegue seu carro, vá até o bistrô, peça um belo vinho e siga esses passos. Sinta minha mão tocando sua perna por debaixo da mesa, sapecamente, e finja aos garçons que está rindo de alguma lembrança boba. Jante confortavelmente e, quando chegar em casa, ligue seu computador. Estarei te esperando.

Ao terminar de ouvir o áudio, ela enxugou as lágrimas que caíam involuntariamente, sorriu. Pensou em como admirava a capacidade que ele tinha de gravar áudios tão longos no celular. Ela nunca havia conseguido. Depois, com água na boca, ela seguiu suas palavras. Foi até o bistrô, sentou-se em uma mesa na varanda, pediu um vinho tinto e um steak tartare.

O vinho chegou e, quando ela dava seu primeiro gole, ouviu – “Nem convida!”

Era ele. Era a mais bela surpresa que já haviam feito a ela. Jantaram confortavelmente e depois. Bom, depois…

 

Melissa Ludovico

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