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Há muitas luas, vivia em uma aldeia uma índia que acreditou numa lenda antiga do seu povo, que dizia que a Lua era um guerreiro poderoso.
Desde que soube dessa história, Iraci começou a sonhar com o guerreiro imaginário.

Ela só pensava nisso e acabou se apaixonando por esse ser lendário.

Com o tempo, foi se afastando de todos e se fechou em seu mundo interior. Não conversava mais com as suas amigas e não se interessava pelos índios da sua tribo – sua atenção estava totalmente voltada para esse ser mítico. Não era pouca coisa que Iraci desejava para si. No entanto, esse era um amor impossível.
A índia passava os dias esperando que a Lua surgisse.

Ficava olhando para o céu e não via mais nada, só o poderoso guerreiro. Por diversas noites ela saiu correndo, com os braços erguidos, procurando agarrar a Lua que brilhava tão linda no céu.
Na aldeia, todos tinham pena da índia e tentavam dizer para ela que aquilo era um sonho. Mas Iraci tinha um objetivo: queria se transformar numa estrela, para ser admirada pela Lua.
Quando não havia luar, ela se aborrecia e ficava na oca até a Lua aparecer novamente.

Uma noite em que o luar estava mais bonito do que nunca, ela saiu correndo atrás da Lua.
Chegando à beira da lagoa, viu a Lua refletida no meio das águas tranquilas e acreditou que ela havia descido do céu para se banhar ali. Finalmente iria conhecer o poderoso guerreiro. Sem hesitar, mergulhou nas águas profundas e nadou em direção à imagem da Lua.
Quando percebeu que aquilo era uma ilusão, tentou voltar, mas não teve força suficiente e acabou morrendo afogada.
A Lua ficou triste com que aconteceu. Já que não tinha transformado a índia numa estrela como ela tanto queria, decidiu torná-la uma estrela das águas – uma flor, a mais bela de todas, a rainha das flores aquáticas.

E, assim, Iraci foi transformada na Vitória – Régia. Em noite de Lua, essa maravilhosa flor se abre, revelando sua impressionante beleza.

Interpretação

Por meio dessa lenda, observa-se que Iraci ao se apaixonar obsessivamente por algo inatingível e desconhecido, deposita nesse objeto de amor uma excessiva quantidade de energia, permanecendo fixada no lado sombrio dessa paixão. Torna-se, assim, prisioneira desse sentimento, deixando de se cuidar e perdendo o interesse por todas as coisas que existiam ao seu redor.

Woodman, Marion (1980), refere que a influencia do “animus negativo” (uma forma de enfeitiçamento) contamina toda a personalidade. Seu contexto social e individual não tem mais importância. Sua paixão obsessiva pela Lua torna-se o centro da sua existência, tendo como efeito seu completo isolamento em relação ao seu meio ambiente. Assim, observa-se que ao invés de uma relação real, ocorre apenas uma relação ilusória, na qual Iraci deseja ser transformada numa estrela para poder ser admirada pela Lua. Metaforicamente, ela está vivendo “no mundo da Lua”, distante de si mesma e de sua realidade. Desta forma, esse amor se apresenta de maneira simbiótica, ela se despersonaliza e seu olhar só está no outro e não discrimina a realidade da ilusão, acreditando ser possível que a Lua desça do céu e se banhe na lagoa.
Possuída por essa paixão obsessiva, Iraci vai longe demais e morre afogada, perdendo para sempre sua identidade. Por compaixão, a Lua a transforma em uma flor, que apesar de linda, permanece presa com suas raízes no lodo da lagoa e só se abre em noite de luar.
Iraci vivencia o fenômeno da projeção ao se apaixonar pela Lua, assim ela é possuída por esse estado.

Esse fenômeno ocorre quando supomos que o outro tem determinadas características e qualidades que nos pertencem.
Segundo o Dicionário Junguiano (2012), esse estado pode levar a duas condições: a do entusiasta ou a do fanático. No primeiro, o individuo é obstinado em manter firme a própria ideia, mas é vivo e vital na percepção do novo; por outro lado, no segundo, permanece fechado em uma ideia fixa e obsessiva formulada rigidamente.Embora a projeção seja um fenômeno natural do ser humano, ela pode ser vivida de maneira criativa ou defensiva. Jung (2012, C.W.5) afirma que as forças da natureza sempre têm dois lados, e o desejo apaixonado pode ser a força que exalta como também, sob certas circunstâncias, pode destruir tudo.
Contudo, ao introjetar e elaborar esses conteúdos, podemos aprender algo sobre nós mesmos, contribuindo desta maneira para o nosso desenvolvimento.
Observa-se que a projeção defensiva pode acarretar um enfraquecimento do eu. Com isso, Iraci, ao se dar conta que seu grande amor era apenas uma ilusão, não possui mais forças para voltar e perde-se totalmente de si, morrendo afogada.
Ao final desta trágica lenda, a linda índia passa a vegetar e se torna um receptáculo da Lua, vivendo para sempre nessa estagnação.
Na perspectiva antropológica, Verhá Poty liderança política Mbyá Guarani – Professor do Curso de língua Mbyá Guarani para estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nos diz que na Língua Mbyá Guarani a palavra Lua é masculina. Eles dizem, “o Lua” e não “a Lua”.

Reflexão

Você provavelmente conhece alguma história, ou já ouviu falar de pessoas que foram tomadas pela paixão e a vivenciaram de maneira obsessiva. Essas pessoas normalmente colocam o objeto dessa paixão no centro de sua existência e consequentemente se afastam do convívio social e familiar, fechando-se em si mesmas. Com isso, muitas vezes não percebem os riscos existentes.
Elas, assim como a índia Iraci, permanecem estagnadas e prisioneiras dessas paixões, vinculadas e dependentes de amores muitas vezes tóxicos, inatingíveis e ilusórios.
Enquanto permanecem iludidas, poderão distorcer a imagem do outro. Só podemos caminhar se “colocarmos os pés no chão”, aceitando a realidade.

Adriana Politi | Psicóloga Clínica especialista em psicoterapia Junguiana e saúde mental – Membro Candidata do IJUSP, filiada a AJB e IAAP

Email: spauloncipoliti@uol.com.br