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A violência sexual contra crianças é uma questão bastante delicada e vem deixando a sociedade cada vez mais alarmada. Tem se observado um aumento constante nos casos de abuso sexual que são reportados, o que se deve especialmente ao papel da mídia, que tem contribuído de forma positiva na detecção desses casos, fazendo com que as crianças relatem mais o que possa estar lhes acontecendo. Tudo isso faz com que, tanto crianças como seus familiares, procurem mais os serviços de saúde e registrem cada vez mais a ocorrência desse tipo de crime.

O abuso sexual é considerado qualquer forma de exposição de uma criança a estímulos sexuais inapropriados para a sua idade, seu nível de desenvolvimento psicossocial e seu papel na família. Ou seja, não é necessário que uma criança tenha sido estuprada para considerarmos que ela esteja sendo abusada sexualmente. O abuso sexual é um fenômeno universal que ocorre em diferentes classes sociais, etnias, religiões e culturas.

É importante lembrar que, ao ser submetida a uma situação de abuso sexual, a criança apresenta sinais do que está lhe acontecendo. Esses indícios podem ser observados através de mudanças bruscas de comportamento, tais como: hiperatividade; mudanças nos hábitos de dormir e alimentares; comportamentos regressivos; aumento de envolvimento em acidentes; pesadelos; brincadeiras violentas com bonecas; depressão; machucar animais; comportamentos autodestrutivos; fala sem sentido; mentiras; dificuldade de socialização; problemas escolares; medo de ficar sozinho ou com algum adulto em específico; comportamento hipersexualizado, entre outros.

Quando alguma criança apresenta queixa de estar sendo sexualmente abusada, é preciso dar credibilidade à sua palavra, pois se ela traz um relato, geralmente permeado de detalhes, é porque algo possa estar acontecendo. Deve-se salientar que crianças não mentem e não fantasiam esse tipo de assunto, ao contrário do que é dito popularmente.

O abuso sexual infantil ocorre geralmente em ambientes privados, como na residência da criança e/ou do autor da agressão sexual, o qual, na maioria dos casos é seu conhecido, sendo principalmente, pai biológico, padrasto, avô, tio, primo, irmão, ou outro conhecido da família. Devido à posição privilegiada no núcleo familiar e da autoridade que lhe é investida, e por se tratar, na maioria dos casos, de pessoa que deveria proteger a criança, fornecendo-lhes coisas boas e positivas, o autor da agressão consegue que essa violência permaneça crônica e oculta por longo período de tempo.

Muitas vezes, devido à tenra idade dessas crianças, elas demoram a se dar conta de que está lhes acontecendo algo errado, não sabendo inclusive nominar a violência sexual. Outro fator que contribui para a demora na revelação dos fatos é o sentimento de culpa por elas sentido, e que não raro é imbuído pelo próprio autor do abuso sexual. Somam-se a isso as ameaças que também podem ocorrer, fator que contribui para uma não comunicação ou uma comunicação tardia do abuso sexual.

Tudo isso faz com que os danos psíquicos sofridos por essas crianças sejam cada vez mais irreparáveis se elas não forem adequadamente cuidadas. Daí a importância fundamental do acompanhamento psicológico, que tem como objetivo principal reduzir os danos decorrentes do abuso sexual e romper o ciclo da violência. Concluído esse objetivo é possível que a criança alcance qualidade de vida desejada e não rememore esse acontecimento para sempre.

Contudo, deve-se pensar em prevenir diferentes formas de abuso sexual contra crianças, através de um diálogo aberto com as mesmas.  Devemos passar a elas a noção que seu corpo é algo que ninguém tem o direito de tocar, e que caso algo nesse sentido venha a acontecer, é importante relatar o ocorrido a algum responsável, que poderá estar lhe auxiliando nessa situação.

Finalizando, devemos olhar para o nosso próprio quintal, uma vez que a problemática do abuso sexual não se concentra apenas na velha expressão: “Não aceite balas de estranhos”, mas sim convivendo lado a lado com as nossas crianças.

 

Daniela Pedroso é psicóloga, mestre em saúde materno-infantil, possui 23 anos de experiência com abuso sexual de crianças, adolescentes e mulheres adultas. Atende em consultório particular e também ministra palestras sobre o tema.

dani.pedroso@uol.com.br