barra
“Você ainda faz seu filho usar booster e cadeirinha? Eles vão se sentir humilhados”.
A pessoa, obviamente, diz isso na frente dos meus filhos, que se sentem empoderados depois do comentário:
“Viu só, mãe? Não quero mais usar cadeirinha nem booster. Nenhum amigo meu usa, e meus amigos vão rir de mim”.
“Booster é coisa de bebê”.
E aí, as pessoas deveriam se dobrar às reclamações dos filhos e tirar o booster ou a cadeirinha?
Não vou escrever este texto como mãe, e sim como médica especialista em medicina legal.
Talvez o texto possa ser um pouco forte para quem for sensivel, por isso já estou colocando aqui um aviso para que pessoas mais sensíveis não leiam, mas parem aqui neste parágrafo, apenas acreditando na importância das cadeirinhas infantis.
Não vou falar aqui sobre as cadeirinhas para bebês, (que têm que ser usadas sempre viradas para trás ), mas das cadeirinhas para aquela idade limite em que a criança já começa a amolar os pais para sair dela.
Os dados abaixo não são hipotéticos. São dados de- infelizmente- autópsias e avaliações de pessoas portadoras de incapacidades graves em decorrência de acidentes automobilísticos.
Pergunta: seu filho tem mais de 1,45 metros de altura?
Se tem menos, ele AINDA PRECISA da cadeirinha ou booster.
E esse número (1,45 metros) não é um número “mágico” e nem tirado da cartola.
É a altura necessária para o cinto de 3 pontos ficar com a parte superior exatamente apoiada no ombro, e a parte inferior posicionada exatamente sobre aqueles ossinhos mais salientes que sentimos ao palpar as laterais da bacia.
NUNCA passando pela lateral do pescoço.
E NUNCA passando por baixo do braço.
Mesmo que a criança use uma almofadinha em cima dessas regiões para aumentar o conforto.
Qual o problema do cinto passando pela lateral do pescoço?
Não é frescura.
Em caso de impacto frontal, o cinto passando pela lateral do pescoço faz com que esta região seja a primeira a receber, sobre o cinto, o impacto decorrente do peso da cabeça que vem para a frente. A cabeça da criança é proporcionalmente mais pesada que a do adulto, e por isso se desloca para frente exercendo uma grande pressão do pescoço sobre o cinto.
No que isso resulta? Isso pode resultar em fratura de traqueia, lesão da artéria carótida, lesão da jugular, fratura da clavícula, pneumotorax ( entrada de ar na área ao redor do pulmão), que podem resultar em hematomas nessa região com compressão de estruturas vasculares ou de condução de ar do pescoço, ou mesmo trombos resultando em isquemia cerebral. Entao, cinto passando pela lateral do pescoço, NUNCA.
Passar a parte de cima do cinto de 3 pontos por baixo do braço, pode?
Nessa posição, em caso de impacto frontal, não há sustentação alguma da parte superior do corpo. Em caso de impacto frontal, esta cabeça proporcionalmente mais pesada da criança vai para a frente a toda velocidade.
Isso pode gerar lesão axonal difusa (uma lesão de varios axonios dos nervos cerebrais, pela aceleração e desaceleração), impacto da cabeça sobre o banco da frente (não esquecer que o banco de trás não tem airbag), lesão cervical.
O impacto da freada vai se depositar ou na parte superior do torax (resultando em afundamento torácico) ou na parte superior da barriga, para onde a parte superior do cinto se desloca no impacto. Isso pode resultar em trauma hepatico, lesão do baço, fraturas do quadril, hemorragia interna.  Isso se o cinto não ficar mesmo preso embaixo  do braço no impacto, o que pode lesar o plexo braquial (estrutura que irriga e inerva o braço), podendo causar lesões nervosas no braço, levando a paralisia.
A altura do booster e da cadeirinha precisa ser milimetricamente ajustada para o cinto de cima ficar exatamente na altura do ombro. Nem um pouco acima (lesa o pescoço), nem um pouco abaixo (lesa o ombro e o plexo braquial).
O cinto inferior tem que estar bem sobre os ossinhos do quadril. Não sobre a barriga. Se ele ficar sobre a barriga, isso pode causar hemorragia interna por lesão do figado, baço, aorta abdominal.
Essas posições corretas só podem ser atingidas com o booster ou cadeirinha.
Criança não pode andar de carro com as perninhas dobradas, como se estivesse agachado. Tem que ficar estendida a frente do corpo, como se estivesse sentado em uma cadeira. Perna dobrada faz lesar os joelhos e quadril em caso de impacto. Se precisar, puxe o banco do motorista ou passageiro mais para a frente.
Criança no banco da frente, sem ainda ter 1,45m de altura, pode?
Não é aconselhável.
O airbag do banco do passageiro é feito para abrir na altura do torax. Ele tem que sustentar o impacto na região do peito, e a cabeça cai sobre o airbag depois que ele está inflado. Uma criança que ainda não tem altura suficiente, terá o airbag inflado sobre a cabeça, podendo causar lesões neurológicas. Ele não foi projetado para esta altura.
As criança menores de 7 anos ainda não têm tonus muscular do pescoço bem estabelecido (além da cabeça proporcionalmente mais pesada, ja descrita acima). As cadeirinhas que tem as proteções laterais da cabeça não existem por acaso. Em caso de impacto lateral, essa proteção evita que a cabeça seja jogada pro lado em movimentos extremos, e que isso cause lesões cervicais.
Deixar a criança ir dormindo no carro com a cabeça apoiada no vidro, nem pensar. Se seu filho tem mania de fazer isso, melhor comprar uma cadeirinha que sustente adequadamente as laterais da cabeça.
Se a cadeirinha tem cintos do tipo “mochila”, com duas alças (que tem que prender uma fivela na altura do peito e outra na altura da virilha) e você, por preguiça, só prende a do peito, também é perigoso! Em caso de impacto, a parte frontal do peito e o quadril vão para frente e os ombros ficam presos pelo cinto, o que pode causar lesões ortopédicas graves dos ombros e quadril, alem de lesões pulmonares. Este tipo de impacto pode também causar fraturas da coluna torácica ou lombar.
Neste tipo de cinto, a parte superior tem que ser afivelada exatamente na altura do osso esterno, sobre o torax, nunca perto do  pescoço e nem na barriga.
O cinto não pode ficar frouxo, tem que caber apenas um dedo no espaço.
Duas crianças no mesmo cinto- não pode!  O cinto foi projetado para sustentar os quadris e o torax, e essa proteção se perde ao dividir o cinto.
Se sua cadeirinha infantil tiver um dispositivo chamado “top tether”, é importante usa-lo. Ele fixa a parte superior da cadeirinha à parte de trás do banco. Isso evita que a cadeirinha “jogue” para a frente em caso de capotamento (consulte sempre o manual da sua cadeirinha). Alias, se puder optar, sempre procure cadeirinhas com top tether.
“Ah, mas é só até a escola, nem precisa de cinto, é rapidinho” – a maioria dos acidentes acontece nos trajetos curtos e habituais, em que a pessoa está desatenta porque se considera fora de risco. Em situação de estrada, muitas vezes as pessoas capricham mais na atenção. E basta uma vez, para o remédio ser amargo.
“Ah, mãe, vão rir de mim, vão me chamar de bebê”.
Cadeirinha de criança não foi inventada por frescura.
Não foi inventada apenas para dar mais multa pra quem não usa.
Se não acreditarem nos dados acima (tem uns artigos super conspiratórios e mal embasados na net, e cheios de viéses e erros estatísticos dizendo que” cadeirinha não altera mortalidade infantil” e que “só foi inventada para ganhar dinheiro” ), deem uma olhada no YouTube nos crash tests feitos com bonecos, e tirem suas proprias conclusões.
E se ainda assim não acreditarem, conversem com algum médico legista a respeito.
Com ortopedistas especializados em traumatologia e reabilitação. Com neurocirurgiões.
Os colegas destas 3 especialidades estão entre os adeptos mais irredutíveis das cadeirinhas infantis.
Segurança no trânsito não é brincadeira.
Claro que a decisão final cabe a cada pai ou mãe, de ceder ou não a seus filhos.
Apenas sou a favor de que as pessoas tomem estas decisões cientes das consequências que delas podem vir.
Espero que ajude alguém.
Angélica Kolody Mammana
Médica – Perita em Medicina legal e forense e pós graduada em Psiquiatria Forense.