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Ano escolar perdido? Será?

Estamos diante de um ano atípico e diferente dos outros vividos, em vários aspectos: social, econômico, cultural, emocional, profissional, familiar etc. Passamos pela fase da resistência, do medo, da aceitação, do processo de adaptação profissional e pessoal, organizamos ou tentamos organizar a rotina da casa para adaptá-la ao home office e a todo o combo do contexto, relutamos, oscilamos, superamos. Mas ainda não acabou! O tempo passa e a possibilidade de análise e leitura desses tempos também se modifica, se transforma. Sinal de que também estamos nos transformando.

Quem tem filhos na escola sabe que o tema é imenso, polêmico, inesgotável e repleto de dúvidas e questionamentos. Há famílias e estudantes que se adaptaram ao formato de seus colégios e outros nem tanto. Seja qual for o seu contexto, lhe faço uma pergunta que muito tenho escutado no ramo educacional: você acha que esse ano foi perdido mesmo? Preocupa-se com as lacunas do que não foi cumprido no planejamento escolar?

Sempre que ouço essas preocupações, fico refletindo como mãe, educadora e profissional que atua dentro do Colégio. Será mesmo que podemos considerar um ano que, sim, foi cheio de desafios e adaptações de todas as ordens, como perdido, em termos de aprendizagens?

Se criássemos uma balança para colocarmos tudo que perdemos e pudemos aprender nesses últimos meses, você acha que sua balança estaria desequilibrada? Retrocedemos ou aprendemos mais e diferente? Como está sua balança?

Escuto, reflito e olho para dentro do Colégio novamente. Quantas coisas pudemos ensinar e aprender dentro das paredes das aulas virtuais, que extrapolam os planejamentos didáticos e apenas os conteúdos, denominados pedagógicos. Certamente, cada contexto escolar se adaptou à realidade e recursos que dispõe, mas não conheço um espaço educativo que não se transformou e se reinventou, com muito engajamento da equipe e intencionalidade nas propostas desenvolvidas. Os professores e gestores escolares, incansavelmente, estudaram para adaptar suas aulas e instrumentos avaliativos.

Os ditos “conteúdos” possibilitam um conhecimento isolado, quando não aplicados ao contexto e realidade em que se vive. Não à toa, a nova Base Comum Curricular, já prevê uma aprendizagem para o desenvolvimento de habilidades e competências. O conteúdo é um caminho para se chegar lá mas, sozinho, não faz sentido e não configura uma aprendizagem permanente e duradoura. Quando falamos em processo de aprendizagem e processos de memória e evocação de informações, nos deparamos com achados científicos que corroboram isso.

As escolas tiveram que adaptar seus planos pedagógicos para os tornarem compatíveis ao ensino remoto. É um consenso de toda sociedade e, comprovado agora, na prática, que a educação básica ocorre nas relações, nas trocas, nas partilhas entre pares, na mediação de um professor. Educação à distância é uma realidade para outros níveis de ensino! Mas o que estamos vivendo é um momento, é temporário e, se bem aproveitado, pode gerar grandes aprendizagens do ponto de vista do desenvolvimento global, sócio-emocional.

Gosto muito de uma frase de Jean Paul Sartre: “Não importa o que a vida fez de você, o importante é o que você fez com o que a vida fez de você.” A realidade está posta: é esse o contexto histórico que estamos atravessando, nossos filhos estão na escola que escolhemos, na nossa casa e com a família que constituímos. Minha escolha é como passar por isso da melhor forma possível, como ajustar os desafios e como escolher mecanismos e escapes para enfrentar as instabilidades.

Difícil passar pelas oscilações comportamentais de crianças e jovens, desafios profissionais e a rotina da casa, ao mesmo tempo? Sim, é difícil! Reconhecer isso, já ajuda bastante. Reconhecer e se permitir sofrer, ficar cansado, no limite, não cozinhar vez ou outra, deixar a louça para o dia seguinte, sem culpa, também pode ajudar! Permita-se viver o momento atual, com todos os perrengues e possibilidades que ele traz.

Preste atenção na sua casa, na sua família e na sua rotina. Talvez se revele um paradoxo comportamental: quando estamos fora (de casa ou distantes da família), queremos estar dentro; e, quando estamos dentro, queremos sair para o mundo. Viva este momento, ele é único!

E se tudo isso está difícil para o universo dos adultos, para os nossos filhos não é diferente. Somos o equilíbrio deles. Brinco nas minhas reuniões de pais, que somos o “encéfalo” de nossos filhos, que ainda estão em pleno desenvolvimento. Precisamos ajudá-los nessa leitura de mundo, de realidade, a nomear seus sentimentos e a encontrar estratégias para os desafios. Como? A resposta é simples e complexa, na mesma medida: conversando, estando juntos, acolhendo, fazendo boas perguntas e os colocando em pé!

O estabelecimento de uma rotina se mostra um importante caminho, também, porque traz segurança interna, procedimentos importantes no atual momento em que, o estar em casa, pode confundir a rotina. Faça programas diferentes aos finais de semana, mesmo que simples, como o dia da pizza, do jogo, do filme!

Algumas dicas para a rotina escolar que podem ajudar:

  • Cada estudante tem um local preferido de estudos em casa, porém, é importante que escolha um espaço com poucos distratores e aparelhos tecnológicos ligados;
  • A organização da rotina para as aulas online faz a diferença no processo de atenção do estudante. Como, por exemplo, manter o período de sono habitual (mínimo de 8 horas), alimentação regular, trocar de roupa para assistir as aulas, separar o material das aulas do dia e garantir mesa e cadeira confortáveis para esse estudo.
  • O registro das atividades nos cadernos, continua sendo uma ferramenta de organização importante para o desenvolvimento de habilidades procedimentais, aos alunos do ensino básico: data da aula, tema da aula e atividade/conteúdo desenvolvido. Ser apenas “ouvinte” passivo das aulas virtuais, pode não ser suficiente para esse momento de ensino e aprendizagem.
  • Sempre incentive seu filho a apresentar suas dúvidas e dificuldades aos professores, à medida em que aparecem. O processo de realização das tarefas de casa e classe, diariamente, são possibilidades para os estudantes entrarem em contato com o conhecimento, elaborarem suas hipóteses e esclarecerem suas dúvidas;
  • Ao observar que seu filho está com alguma dificuldade recorrente, entre em contato com o Colégio para que possam ser definidas ações conjuntas;
  • Diante da constatação de alguma mudança comportamental em seu filho, como desmotivação por tempo prolongado, oscilações de humor ou tristeza, entre em contato com o Colégio para acompanhamento próximo.

 

Em tempos tão desafiadores, conforta saber que o conceito de certo ou errado, não se aplica! Conforta saber que não existe uma receita pronta para atravessar esse momento, pelo simples fato de sermos ÚNICOS!

E aí… como está a sua balança? Já se permitiu fazer coisas novas nessa quarentena?

Vai passar! E, no final, estaremos diferentes!

 

Janaina Gallo Costa

 Mãe de dois filhos

Psicóloga / Pedagoga / Psicopedagoga / Teen Coach

Coordenadora Pedagógica (Ensino Fundamental – Anos Finais) do Colégio Franciscano Nossa Senhora Aparecida – Consa

Empreendedora da loja de óculos Rigallo – www.instagram.com/rigalloocchiali