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Questionamentos referentes à vida profissional é uma constante no universo de muitos jovens que estudam para o ENEM.  Todavia estes questionamentos – por ventura a própria tomada desta decisão tão importante – ocorrem em um período de vida repleto de crises e descobrimentos. Henri Wallon (1879-1962), um médico e psicólogo francês que estudou sobre a criação da identidade humana de forma integrada (afetivo, cognitivo, motor e social), aborda bem essas questões quando fala do estágio de desenvolvimento da adolescência, onde o adolescente passa por crises, estruturação e pela apropriação da sua identidade e do seu “eu”.

Sugiro uma volta ao tempo, para os nossos 16 – 18 anos, quando tivemos que fazer esta escolha. Eu particularmente era tão fora do mundo que não sabia a diferença entre vestibular e faculdade. Perdi minha matrícula do segundo período por não saber que na faculdade deveríamos nos matricular semestralmente. Hoje parece engraçado, mas na época isso me dava muita insegurança e medo do futuro. Na ironia da vida, trabalhei durante anos na gestão acadêmica do ensino superior tendo contato direto com universitários, auxiliando desde problemas de “desencontro”, ou problemas na graduação, à ajuda no caminho profissional.

O que percebi é que há uma convergência significativa nas inquietações derivadas de uma escolha tão precoce: dúvidas, insegurança, desconhecimento, tristeza, desorientação… Se o universitário estava em um curso que não se identificava, estes pontos eram agregados a um universo de sentimentos e resultados negativos: reprovações, dúvidas sobre suas competências, vergonha, sentimento de fracasso….

Vejamos como este problema é grave, segundo o Censo de Educação Superior (2016), em um intervalo de 4 anos há uma desistência de 49% do alunado no setor público e 52,7% no setor privado. Outro dado relevante vem da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (2018) onde aponta um agravamento no cenário emocional, apresentando 83,5% dos estudantes com alguma dificuldade emocional. Estes dados demonstram um problema real que precisa de atenção.

Agora vem a grande pergunta, o que nós, pais, podemos fazer para minimizar este efeito em nossos filhos? Primeiro ponto é ter uma boa comunicação. A comunicação tem a característica de transmitir, mas também de receber uma informação. Então é muito importante entender (escutar) o que o jovem deseja e orientar dentro do contexto que ele está inserido.  Com uma boa comunicação, onde exista diálogo e segurança por parte dos dois, as pressões sobre esta escolha se tornam menos pesadas e as decisões mais conscientes. É importante saber que ser bom em matemática não significa (necessariamente) que este jovem será um bom engenheiro. Ou que ser bom em biologia, implicará em ser um bom médico – ou assim sucessivamente. A escolha profissional pode estar alinhada ao brilho no olho, à vocação, às oportunidades…

Outro ponto importantíssimo é uma abordagem sobre ética. Ao longo de um período de 4-5 anos de graduação muitos terminam entrando nas facilidades aparentes (leia-se nos esquemas de consultas ilícitas). Este é um problema real dentro e fora das universidades, mas que cada vez mais vem sendo consolidado desde a base. O ensino de valores, da moral e da ética deve ser muito bem estruturado dentro de casa. É muito importante na sociedade que vivemos ter um diploma, mas a ética… ah a ética… Ela não deveria nem ser pauta, ela deveria ser uma premissa de comportamento e conduta pessoal e profissional (o que infelizmente não é).

Para ajudar no estresse e na eficiência dos objetivos o planejamento e a dedicação são dois grandes aliados. No período universitário gerir o tempo e coordenar as ações são vitais para manter a sanidade em dia. Altas demandas pessoais, profissionais e acadêmicas, nas 24 horas disponíveis e geralmente com a maturidade iniciando. Aqui sugiro uso de ferramentas visuais, deixando as informações literalmente visíveis, de fácil leitura (nuvem de palavras, fluxogramas, desenhos, entre outros), com metas de curto, médio e longo prazo claras para melhor alinhamento, acompanhamento e motivação. Além de aproveitar todas e quaisquer oportunidades, seja em trabalhos voluntários, sociais, oportunidades acadêmicas ou de vida. Neste momento inicial as experiências são válidas. Saber o que gosta, o que não gosta e ter mais opções no leque das decisões se tornam diferenciais em momentos chaves.

O penúltimo ponto é ensinar sobre resiliência. Vivemos em um mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), saber se adaptar ao contexto, se reconfigurar, ter o famoso “jogo de cintura” é muito importante no mundo acadêmico e no mundo profissional. Porém, muitos não sabem muito bem em como lidar com as frustrações. E por fim, ajudar. O mundo profissional já é muito competitivo e difícil, se você tiver como ajudar (aqui não é facilitar ou fazer pelo seu filho), mas apenas ajudar a trilhar os primeiros passos. Dar segurança para uma entrevista de emprego, seja em um contato, em uma oportunidade, uma conversa. Permitir que ele saiba que em casa pode falar sobre as dificuldades, a probabilidade é muito grande deste jovem ter mais sucesso no mundo universitário.

O Homem-Aranha tem boas frases, mas duas se adaptam bem ao que estamos falando: “nós somos o que escolhemos ser… por isso escolha” e “podemos não ganhar todas as batalhas, mas devemos dar sempre o nosso máximo”. A ruptura da escola para o mundo profissional se dá desde o primeiro contato com a universidade, saber se comportar em toda esta trajetória é de suma importância. Neste “jogo” incerto de escolhas e do futuro, a saúde mental do universitário pode fazer toda a diferença para o seu sucesso de curto e médio prazo e a família tem muito como ajudar.

 

Iara Margolis | Professora universitária, Investigadora Acadêmica Internacional, Consultora extra-oficial de universitários